A História do Anarquismo - Parte 3 - Anarco-Sindicalismo

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A Dialética da Libertação: Anarquismo, Existencialismo e Descentralismo.
A História do Anarquismo - Parte 3 - Anarco-Sindicalismo

"A anarquia é pensar por nós mesmos" - charlie 777pt

Introdução

A Anarquia não é um movimento organizado e planeado, com líderes identificados que fazem as regras, bem como a sua participação histórica, surge em tempos em que a turbulência social é muito ativa, mas tende a dissolver-se no tempo, o que muitas vezes acontece quando um poder forte e normalmente totalitário, toma conta da ordem social.

A Anarquia parece ser um espécie viva, que emerge quando existe um turbilhão social em que existem muitas fações políticas hegemonistas a lutar pelo poder(gasoso) , quando este se encontra instável, em que normalmente os mais extremistas tomam concentrando-o até se tornar sólido e autoritário, e ao que parece faz desaparecer ou hibernar a atividade anarquista.

Estas situações levam as pessoas a sentir uma grande instabilidade política e social, e sempre que surge um fascista que lhes garante estabilidade em troca de liberdades pessoais, todos concordam mas não sabem o preço a pagar por suportar tal barbaridade política em nome da "ordem social".

Um exemplo é Portugal, que antes de 1933 vivia numa instabilidade política total, com revoluções cotidianas, novos presidentes, lutas na rua e até assassinatos políticos em massa, com grande envolvimento dos movimentos anarquistas, que começaram em 1873 com Eduardo Maia, médico, fundador da corrente anarquista proudhonista, que contribui mais tarde para derrubar a monarquia.

Então veio Salazar, e prometeu total estabilidade se o povo lhe garantisse o poder autocrático para implementar o seu Estado Novo, o que iniciou um regime fascista, corporativista e colonialista durante 41 anos até ser deposto com a Revolução de 25 de Abril de 1974, quando o anarquismo apareceu novamente.
Há que destacar o conhecido ativista e anarco-sindicalista Emídio Santana, que em 1937 é dos autor do atentado contra Salazar.

Bem, aqui fica um desafio á comunidade da Língua Portuguesa para escrever sobre o anarquismo em Portugal e no Brasil.

1 - As Fontes do Socialismo

O sindicato é o turbilhão de renovação da sociedade e o sindicalismo é uma federação de diferentes grupos de profissionais.

"O sindicato é ao mesmo tempo o instrumento e objetivo da transformação" - Marcel Prélot

Os primeiros teóricos e líderes do Sindicalismo dos Trabalhadores defendem que um estado sindical revolucionário seria o berço do movimento anarquista.
Proudhon e Bakunin sempre se opuseram a Marx e à ideologia do socialismo num Estado autoritário centralizado, e sua aversão também era partilhada pelos anarco-sindicalistas, mas Marx era exímio na arte de difamar e deformar as idéias de seus concorrentes.

A maioria dos Anarco-Sindicalistas eram discípulos das idéias de Proudhon, de uma organização de federações autónomas como o "Atelier" que substituiria o governo.
Para os anarco-sindicalistas, a mudança social é baseada na ação ao nível político e económico, consubstanciada numa federação de células de profissionais para substituir o Estado e a autoridade.

2- Anarco-Sindicalismo

Fernand Pellotier (1867-1901), foi o primeiro teórico do sindicalismo baseado na classe trabalhadora, um anarquista e líder trabalhadores franceses, apresentou o sindicalismo revolucionário por trabalhadores organizados em sindicatos com princípios libertários de democracia direta e autogestão contra a hegemonia autocrática do capitalismo, vendo nas relações de produção como uma forma de criar uma sociedade economicamente democrática sem classes.
O Anarco-Sindicalismo está sempre mais ligado a um Anarquismo Coletivista ou a sistemas económicos Anarco-Comunistas.

"O anarco-sindicalismo e o sindicalismo revolucionário dos trabalhadores usaram a ação direta, recusando todas as formas de organização estrutural ou representação, agindo como uma força manipuladora, como o uso de sindicatos como instrumento e objetivo para substituir a soberania estatal e territorial.
Dois recifes se elevam diante do anarquista. O primeiro, o estado, deve ser superado, especialmente em um furacão, quando as ondas sobem.
Ele inelutavelmente encalha no segundo, a sociedade, a própria imagem que cintilou diante dele."
- Ernst Jünger em "Eumeswil "

Errico Malatesta, um amigo de Mikhail Bakunin, não gostava das opiniões dos sindicalistas sobre a concentração de poder porque, como anarquista, queria livrar-se do capitalismo e do Estado, mas recusava uma sociedade comunista desejada pelos anarco-sindicalistas.

"Sou contra o sindicalismo, tanto como doutrina quanto como prática, porque me parece uma criatura híbrida." ... "O sindicalismo é por natureza reformista" ... "qualquer anarquista que tenha concordado em tornar-se funcionário permanente assalariado de um sindicato está perdido para o anarquismo ". - Errico Malatesta

3 - Sindicalismo Doutrinário

O Sindicalismo Doutrinal também é fundado pelos ensinamentos de Proudhon, e estava vivo na revista "Socialist Movement", dirigida por Hubert Lagardelle e Edouard Berth, mas o seu teórico mais conhecido foi Georges Sorel (discípulo de Bergson).

“Todo o futuro do socialismo reside no desenvolvimento autônomo dos sindicatos de trabalhadores” - Georges Sorel

Sorel acreditava na luta de classes, mas rejeitou o determinismo de Marx de uma construção faseada de reformas progressivas.
Ele também desenvolveu a teoria dos mitos que ele acha que é muito mais importante do que por exemplo o planeamento de greves.
Mitos são as forças que surgem nos indivíduos, para gerar fluxos de heroísmo e exaltação da mente com o objetivo de mudar a velha sociedade.

Georges Sorel concordou com o uso da violência como um valor positivo normal quando contribui para a "caminhada das libertações", como por exemplo as greves gerais.
Ele acreditava que a turbulência espiritual da luta era mais importante que a vitória.

“Por vinte anos esforcei-me para me libertar do que retive da minha educação; Entreguei-me à curiosidade lendo livros menos para aprender do que apagar da memória as idéias que haviam sido lançadas sobre ele. ” - Georges Sorel em Reflections on Violence

4- Sindicalismo Construtivo

O Sindicalismo Construtivo Integrado é bem expressivo na ética e a estética da violência de Sorel , pelo que não atraíram muitos seguidores na classe trabalhadora.
O sindicalismo quer estabelecer uma nova ordem económica para melhorar o status de vida da empobrecida classe trabalhadora francesa.
Este neossindicalismo preocupa-se mais com o nível económico, apelando para capacidades e capacidades técnicas desligadas da capital, mas rejeitava a tomada violenta do Poder.

O Sindicato baseado nos "Ateliers" é a substituição da maquinaria do poder dos Estados.
Os anarquistas libertários, além de alguns serem grandes ativistas, eram em sua maioria intelectuais, mas o anarco-sindicalismo tem as suas raízes na classe trabalhadora, vivendo na pobreza e em condições extremas de trabalho.

"Daí também as intermináveis ​​disputas entre anarquistas, sindicalistas e socialistas de todos os matizes-entre Babeuf e Robespierre, Marx e Bakunin, Sorel e Jaurès, juntamente com todos os outros cujos nomes, mas para o luminar, teria sido apagados como pegadas na areia." - Ernst Jünger em "Eumeswil"

5 - Sindicalismo Jurídico

Paul-Boncour, em 1936 fez um estudo sobre o sindicalismo obrigatório, mostrando os novos laços entre o indivíduo e o grupo de membros profissionais, como nas corporações e associações de trabalhadores, que transforma o contrato em autoridade, criando uma dependência total do ser membro em obedecer às suas decisões. .
Leon Duguit (1859-1928) vem com as mesmas idéias, mas ele enfatiza que não queria dissolver o Estado, mas transformá-lo para combater a onipotência do governo.
Na sua velhice, Duguit começa a afastar-se do socialismo, tornando o Sindicalismo Jurídico numa reforma constitucional em vez da deposição estatal.

Na década de 30, Leon Blum traz a ideia do "parcelarização e divisão do Estado clássico centralizado, num determinado número de pequenos estados técnicos, cuja base seria necessariamente formada por organizações profissionais".
Como vimos, o sindicalismo como uma espécie de comunismo utópico, sempre tentou estar ligado à classe trabalhadora.

"O grupo sindical é típico do grupo organizado que se torna institucional e soberano. Até mesmo o anarco-sindicalismo exige uma elite operária. A classe trabalhadora em momentos de sua maior "solidariedade" possível envolve grupos de fusão, grupos de lealdade recíproca , e a serialidade inerte, em certos setores profundamente penetrados pela unidade assombrada de grupos comprometidos, organização institucionalizada e até mesmo instituições ". - Ronald D. Laing em razão e violência

6 - A História da Anarquia em Banda Desenhada

Para quem gosta de Banda Desenhada , apenas disponível em língua inglesa, aqui fica uma excelente forma de preceber o Anarquismo usando palavras, humor e imagens.

A Anarchy Comics é uma excelente série de banda desenhada da Last Gasp de São Francisco, que publicou de 1978 até 1987, que pode ser descarregada ou lida em "Anarchy comics", feita por artistas anarquistas ou socialistas.

Nome do Ficheiro Tamanho
Anarchy Comics No.1 (1978) 16.79 MB
Anarchy Comics No.2 (1979) 15.89 MB
Anarchy Comics No.3 (1981) 22.74 MB
Anarchy Comics No.4 (1987) 18.59 MB

Grandes leituras em Inglês:

The Anarchis librarythanks to @anarchyhasnogods
Pëtr Kropotkin - Syndicalism and Anarchism
Vadim Damier - Anarcho-syndicalism in the 20th Century
Fernand Pelloutier - Anarchism and the Workers' Unions
Errico Malatesta - On Syndicalism
Anarcho-syndicalism: Theory and Practice

A Dialética da Libertação: Anarquismo, Existencialismo e Descentralismo.
Artigos publicados:

Introdução à Dialética da Libertação: Anarquismo, Existencialismo e Descentralismo

I - Anarquismo

O que é o Anarquismo?

Próximos posts da Série:
I - Anarquismo(cont.)

  • Anarquia: Revolução Contra o Estado(cont)
    • Parte 4 - Anarco-Sindicalismo - Este post
  • A Anarquia Hoje

II - Existencialismo

  • O que é o existencialismo?
  • Os "Existencialismos"
  • Humanismo e Existencialismo
  • Existencialismo e Anarquismo

III - Descentralismo

  • O que é o Descentralismo?
  • A Filosofia do Descentralismo
  • Blockchain e Descentralização
  • Anarquismo, Existencialismo e Descentralismo

IV - Dialética da Auto-Libertação

  • O Congresso da Dialética da Libertação
  • Psicanálise e existencialismo
  • O movimento antipsiquiátrico

Leituras:

Anarquismo - Wkipedia
Correntes do anarquismo

Referências:

- charlie777pt on Steemit:
A Realidade Social : Violência, Poder e Mudança
Piotr Kropotkin - O surgimento do anarquismo
Colectivismo vs. Individualismo

Livros:
Bey, Hakim (1991) 7:A.Z.: the Temporary Autonomous Zone, Ontological Anarchy, Poetic Terrorism, Brooklyn, NY: Autonomedia.
Byas, Jason Lee, Toward an Anarchy of Production - Parts I and II
Marshall, Peter, Demanding the Impossible A History of Anarchism, Fontana Press (1992 )
Oizerman, Teodor.O Existencialismo e a Sociedade. Em: Oizerman, Teodor; Sève, Lucien; Gedoe, Andreas, Problemas Filosóficos.2a edição, Lisboa, Prelo, 1974.
Rothbard, Murray N., The Ethics of Liberty (1982)
Rothbard, Murray N., For a New Liberty The Libertarian Manifesto, Revised Edition
Tucker, Benjamin, Individual Liberty, Selections From the Writings
Pierre-Joseph Proudhon , What Is Property?
Bakunin, Michael , Bakuninon Anarchy: Selected Works by the Activist-Founder of World Anarchism
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Não sei explicar direito, mas... A palavra sindicalismo me vende uma ideia negativa. U.u'

P.S.: Outro post muito bom, @charlie777pt!

hehe, o discurso do sindicalismo fazia muito mais sentido em que no mundo civilizado só existia uma grande maioria de pessoas da classe trabalhadora que realmente vivia em condições de total miséria física psicológica e económica, que até os próprios inteletuais da classe burguesa se sentiam humanamente indignados e aderiam ao movimento, incluindo muitos anarquistas que se sentiam revoltados por tais condições de vida.

wow it is great article man