E, às vezes, nos esquecemos no passado
Uma reflexão dentro da psicologia sobre uma sensação que atinge muitos de nós em algum momento da vida.
Pintura de Egley descrevendo a Dama de Shallot. Segundo a lenda arturiana, a Dama de Shallot vive sozinha num castelo perto da Camelot de Rei Arthur. Por conta de magia, ela é proibida de olhar diretamente para o mundo lá fora pela janela, podendo vê-lo apenas através de um espelho, devendo tecer tudo que vê lá fora na forma de tapeçaria, isso sem nunca ver nada do mundo diretamente. Os fazendeiros que vivem perto apenas a ouvem cantando sem nunca vê-la.
Estava lendo a obra Suicídio e Alma, do psicólogo James Hillman e certas questões vieram em minha mente. Vou falar delas bem brevemente aqui. Não entrarei em termos complexos, em questões filosóficas ou existencialistas e nem tentarei dificultar a linguagem; o objetivo é escrever algo muito simples.
Acontece com alguns de nós de nos perdermos nos anos. Aquela sensação de ter ficado lá para trás; sensação de que, a partir de algum momento em nossas vidas, as coisas perderam o sentido ou passaram a ser mais simulação do que vida autêntica. É como se tivéssemos nos esquecido lá atrás, no passado, em dias em que as coisas eram mais reais do que são hoje. E disso muitas coisas podem surgir: ansiedade, depressão, tristeza, deslocamento, embotamento afetivo e outros tipos de problemas.
E, aos poucos, nos perdemos mais de nós mesmos. Onde isso irá parar? Para onde foi a vida, a energia e a vontade dos dias? Em algum momento, surge a impressão de que escolhemos passar pela vida ao invés de vivê-la. A sensação é de que não há mais alma nas coisas e a nossa própria alma já está lá no fundo, quieta e recolhida, talvez inexistente.
Existe algo que é chamado contato direto, que é uma possibilidade de agir com alma, abrir certas defesas e habitar na presença das coisas, no tão falado aqui e agora. Contato direto é viver de fato, autenticamente. Esse fenômeno surge nas relações interpessoais, na nossa relação com um lugar, com uma atividade ou em qualquer situação existencial que se abra diante de nosso trajeto vital. Hillman fala, no livro mencionado, que, normalmente, nós construímos muros, véus e fazemos desvios para evitar esse contato; erigimos crostas que protegem a sensitividade de uma grande exposição imediata (lembrando que imediato é o oposto de mediato, ou seja, imediato é o que carece de mediações).
Esse contato direto que é imediato, sem mediações, teria se tornado um grande tabu. Diz o autor que é por isso que a experiência se tornou vicariante. Mas o que seria vicariante? Vicariante denota uma coisa que substitui outra. Portanto, nossas experiências teriam se tornado substitutivas, ou seja, mediatas, indiretas. A figura que ele usa para isso é a de que o alimento da alma, aquela coisa que a satisfaz, foi empacotado. Quando essas experiências vicariantes e essa vida indireta, oculta por crostas e muralhas, torna-se regra, deixamos o protagonismo de nossas próprias vidas.
Room in New York, por Edward Hopper. As pinturas desse artista normalmente nos revelam uma melancolia cotidiana, um sentimento de estranhamento em relação ao mundo que nos cerca
Nesse momento, deixamos de viver dentro da própria vida, sentindo que estamos em algum lugar exterior a essa vida, somos telespectadores do nosso próprio filme, assistindo-o e comentando sobre as coisas que passam. Eis que também podemos acabar vivendo por outros, deixando a vida de lado e apenas preenchendo esperanças nascidas do desespero alheio. Então temos a mãe que vive sua própria vida através dos seus filhos e um pai que vive através do seu trabalho. A própria sexualidade se torna um gesto compulsivo em face às possibilidades de contato imediato que a pessoa não consegue mais alcançar – uma tentativa desesperada! Na alma, há um impulso de estabelecer contato autêntico com o outro, de mostrar-se em sua essência – desnudar-se! –, mas tudo que ela se torna capaz de fazer é oferecer o corpo para obter do outro uma resposta insuficiente.
E, faltando-nos aquela espontaneidade essencial, mesmo as coisas que deveriam nos oferecer o contato direto podem acabar erguendo muralhas ao redor de nós. Atividades religiosas, esportes, lazer e a própria psicologia, tudo isso pode servir para bloquear o contato direto. Diz Hillman que, assim, a vida adquire uma característica "postiça", falsa, à qual muitas vezes os jovens tentam desesperadamente exercer um rompimento.
Encontrar o contato direto é difícil para nós. Não há fórmulas para tal. Segundo o mesmo autor, paradoxalmente, a norma humana é a individualidade, mesmo que esta sempre resulte em algo único. Tornar-se si mesmo... Mas quem é o si mesmo? Assim, é parte da jornada em busca de uma vida significativa e plena encontrar essa identidade, mesmo que ela seja excêntrica e vá contra o que se tenha por norma habitual. Vale dizer que é tido como uma espécie de consenso que há pessoa sabe quando está na trilha de sua individualidade, assim como, lá no fundo, também sente quando está vivendo uma vida que não lhe pertence. O conceito de individuação trazido por Jung e reinterpretado por vários autores na psicologia cabe bem dentro deste assunto.
Buscar o contato direto é buscar quem se é; tornando-se consciente das múltiplas faces que todos nós temos (não, não somos uma pessoa só, somos várias); é dar conta de quem se é de várias formas e, finalmente, sentir-se confortável na própria pele em que habita. São essas condições de uma existência mais autêntica. Porém, há de se esquecer de ideias como saúde total e perfeição ou mesmo a ilusão de afastamento perpétuo da morte. Nossas imperfeições, defeitos, nossos momentos de tristeza, tudo diz alguma coisa e também é parte do que somos.
A Bela Adormecida, pintura por John Collier. Amaldiçoada por ação de um elemento sinistro que surge em sua vida – a bruxa –, é condenada a dormir profundamente até que possa ser despertada por um beijo de amor verdadeiro
Ainda dentro daquela existência vicariante, substituta, indireta e coadjuvante de que falei, existe mais o que se abordar. Há uma sensação comum nesses casos, que é a de a pessoa não se reconhecer nos próprios atos, de fazer coisas das quais não se conhece a origem, mal acreditando que tenha sido tomada aquela atitude. E também surgem sentimentos confusos que nem sabemos de onde brotam. Se não sabemos de onde vem aquela tristeza, a euforia, aquela raiva ou o sentimento de desolação, como entender o que esses sentimentos nos comunicam?
O que essas ocasiões indicam é uma potente falta de sincronia entre nosso consciente e nosso inconsciente. Conscientemente, não conseguimos compreender o que tudo aquilo significa, não entendemos porque nós mesmos falamos ou fazemos certas coisas – de onde veio aquela frase que soltei? Por que eu tomei aquela atitude? –, tornamo-nos um mistério para nós mesmos, um mistério que pode ser amedrontador como a esfinge: Decifra-me ou te devoro! Porém, ao mesmo tempo, nosso inconsciente, e lembre que ele é a maior parte de nós, diz outras coisas.
Uma vez que o inconsciente não entra completamente à luz da linguagem e da lógica, mecanismos característicos da consciência, ele fala conosco através de sintomas, de sonhos, de devaneios, de atos falhos (aquelas coisas que falamos sem querer e ficamos sem entender) e através do nosso próprio corpo (somatização). Quando agimos sem entender o porquê daquilo, quando tudo muda sem que entendamos o sentimento, quando palavras e ações partem de nós sem que tenhamos optado por elas, é o inconsciente (ou seja, você), agindo da maneira que pode para lhe comunicar que há alguma coisa descompassada na relação dele com a consciência. Uma espécie de mecanismo compensatório.
Há algo que não está sendo escutado dentro de si mesmo, um clamor que foi calado. Ao mesmo tempo, tentamos fugir do sofrimento, da fraqueza e da tristeza. Mas também estes são parte da existência. Essas coisas também produzem significado na alma. Há muita coisa em nós que reprimimos, coisas que fazem parte mais de nós mesmos do que queremos. Por vezes, a tristeza também quer nos comunicar algo e acabamos calando ela fugindo, buscando outras coisas, sem permitir que ela nos confie seu significado na alma. O mesmo serve para outros sentimentos. Podemos fugir deles e, nesse caso, fugir também significa reprimir; porém, reprimindo parte de nós mesmos, é muito provável que os mesmos conteúdos voltem mais tarde com mais força, dando rasteiras em nosso eu consciente. Se nós fugimos das coisas que nos são verdadeiras, é muito possível que, por fim, fujamos de nós mesmos, assumindo experiências vicariantes, substitutas, indo mais longe daquele contato direto que mencionei anteriormente.
O Fisher King (Anfortas em algumas versões) é o rei do Castelo do Graal, mas é um rei que foi ferido e, desde então, todo o reino padece: o gado não se reproduz, as colheitas não vingam e os cavaleiros são mortos. Como o rei está ferido, todo o reino também está. O único que é capaz de sanar a ferida e reaver a glória do reino é o chamado “tolo ingênuo”, o inocente bobo, aquele de quem ninguém espera salvação (que vem a ser Parsifal). Da mesma forma, podemos estar feridos por dentro, padecendo com todo nosso reino e, como não há regras, a “salvação” ou a “cura” pode vir de algo totalmente inesperado e novo, daquele aspecto infantil e ingênuo que julgávamos tolo
Uma coisa que vale a pena encaixar aqui é a nossa expectativa e a própria noção de cura. Tem-se habitualmente que a cura consiste em regressar a um estágio anterior em que o sintoma não existia. Bom, tornei-me ansioso, então preciso achar um meio de destruir esse sintoma e regressar àquilo que era antes, quando não tinha ansiedade. E, enquanto, mesmo que inconscientemente, pensamos assim, o fluxo do tempo nunca para; nossa vida segue adiante e os ponteiros do relógio continuam sua marcha triunfante. Esse também é um modo de regressar, de se perder no passado. Apegado à imagem que temos de nós mesmos antes do inconsciente manifestar aqueles sintomas, aquela patologia, acreditamos que no passado encontraremos a chave que perdemos em algum momento, a chave da vida saudável e plena que imaginamos ter tido em outros dias. Pois bem, esse modo de pensar pode ser um tanto prejudicial à nossa jornada rumo à individualidade, ao si-mesmo.
Se pensarmos que o mencionado pensamento volta ao passado, tentando projetar no futuro um estado que já ultrapassado pelo próprio sintoma ou patologia que se somou à existência, a coisa fica mais clara. Se o sintoma consiste num clamor, num grito do inconsciente dentro das linguagens que o mesmo é permitido falar, o que isso significa? O sintoma quer dizer algo, ele surge para compensar alguma coisa – e isso pode ser uma infinidade de coisas; um complexo, um trauma, um desajuste, um medo etc. Regressar seria mesmo a opção mais viável?
Em oposição ao pensar na cura como mero apagar do sintoma e na vida saudável como ausência de qualquer sintoma, vida perfeita, sem qualquer tipo de negatividade, é que as propostas de James Hillman são posicionadas. O psicólogo ensina que a cura tem mais a ver com atravessar o sintoma. Se o sintoma tinha um significado próprio para o inconsciente (como uma mensagem do inconsciente para a consciência), há algo a ser integrado a partir do encontro com o sintoma. Há algo a ser aprendido. A pessoa anterior ao sintoma não mais reaparecerá, o sintoma matou ela. A pessoa que atravessou o sintoma é uma nova pessoa, uma pessoa que aprendeu algo novo em direção ao seu ser mais próprio, sua própria individualidade; ela integrou o que o inconsciente tinha a lhe comunicar. Assim, a proposta não é imaginar a cura como um regresso a uma vida esterilizada e perfeita, mas mais como compreensão do sintoma como parte de si para, então, atravessá-lo incorporando o que ele tinha a oferecer ou transmitir.
Todo esse movimento, tão difícil de fazer e sempre tão único a ponto de desprezar qualquer tipo de formulação geral e metodológica para a cura, insere-se dentro da dinâmica entre consciente e inconsciente. O contato direto, a existência autêntica, o fato de finalmente se tornar o protagonista do próprio filme, tudo isso requer certo nível de harmonia entre essas duas faces de nossa misteriosa totalidade como humanos. É conciliar racional e irracional, é abrir a possibilidade do contato direto e não viver perdido no passado ou na construção de crostas que nos isolam enquanto deixamos a vida autêntica em nome de atividades substitutivas, indiretas, apagadas.
Referências
HILLMAN, James. Suicídio e Alma. Tradução de Sonia Maria Caiuby Labate. Petrópolis: Vozes, 1993.
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Esse é um texto sobre psicologia. Também escrevi sobre o tema em outras ocasiões:
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Parabéns, seu post foi selecionado pelo projeto Brazilian Power, cuja meta é incentivar a criação de mais conteúdo de qualidade, conectando a comunidade brasileira e melhorando as recompensas no Steemit. Obrigado!
Que reflexão incrível, @flaviusbusck!
Eu estou aqui viajando nos meus pensamentos depois de ter lido isso. Muito bom MESMO!
Obrigado, @wiseagent! Fico contente que isso tenha feito você refletir em alguma coisa. É o propósito! :)
Meu amigo, que reflexão poderosa! Gostei demais de tudo que você escreveu e me identifiquei com varias partes. Antes de sair pra estrada eu vivia bem no ponto do mediato: dava aulas de circo, apresentava os numeros, jogava no computador, mas tudo parecia uma eterna repetição comigo assistindo de longe. Até que um dia decidi me tornar o protagonista da minha vida e cai na estrada para viver o agora. E muitas vezes reforço essa ideia de ser o protagonista da vida, de tirar as carapaças e viver o que está acontecendo.
Também gostei muito da parte onde é preciso atravessar os sintomas e saber que quem sai do outro lado já é um novo você. Acho muito valiosa essa informação, mas não consigo colocar bem em palavras.
Gratidão demais por compartilhar essa "breve" reflexão!
Vale a leitura varias vezes!
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Muito bom ler isso! Acho que sua história tem bastante a ver com o que eu coloquei no texto. Acredito também que você tenha uma preocupação saudável com esses aspectos da nossa vida , uma atenção que faz toda a diferença. Resta-me dar os parabéns pela coragem em tomar um novo caminho. Lembro que em um dos seus textos você falava sobre os amigos que seguiram outros caminhos de vida e, se não me engano, você falava de como podia ser difícil explicar as próprias opções a eles. Pode ser que muitos estejam vivendo cercados por muros e nem imaginem isso.
Obrigado pela leitura e pelo comentário!
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Acredito que a rotina também ajuda para que a chama vá diminuindo e se apagando e que temos de experimentar coisas novas, ter experiencias novas, todos os dias.
Gostei do texto, muito lúcido
projeto #ptgram power
Verdade. Aos poucos a gente corre o risco de se ocultar das coisas mais verdadeiras. A chama diminui e começamos a nos isolar, como se construíssemos uma "muralha" à nossa volta...
Obrigado pela leitura e pelo comentário :)