O que vemos lá fora?

in #pt8 years ago
Desejo trazer uma breve reflexão a partir da experiência clínica do psicanalista Contardo Calligaris, tratando um pouco da imaginação e de como vemos o mundo que nos cerca.

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Ontem fui à faculdade ter uma reunião com meu orientador sobre a realização do meu estágio em psicologia clínica. Como sou de orientação junguiana e ele também, detemo-nos muito no tema da clínica dentro da Psicologia Analítica e na área de especialidade do meu orientador, a Psicologia Arquetípica. A conversa foi muito rica, passando de temas mais teóricos como estruturalismo de Saussurre, obra de Lacan, James Hillman e o mundo arquetípico no domínio fenomenológico até coisas mais mundanas como a postura ao atender o cliente, as recomendações, os horários e tudo mais que cabia à primeira discussão.

Na noite do mesmo dia, meu orientador enviou a mim um trecho retirado de algum livro ou anotação que ele tinha consigo. Era um depoimento do psicanalista Contardo Calligaris, que recebe bastante influência de Jacques Lacan. O psicanalista falava de um exercício que fazia frequentemente em sua clínica.

Como ele atendia muitos adolescentes, que segundo ele têm uma experiência pobre de mundo, ele costumava os levar até a sacada do consultório e perguntar o que viam ali. Era muito comum que eles respondessem coisas como "um monte de prédios" apenas. Contardo insistia perguntando pelo que havia nesses prédios e a resposta vinha na forma de algo como "janelas". Ele aprofundava a questão perguntando o que o adolescente via naquela janela, ampliando a paisagem, transformando-a não em paisagem arquitetônica, mas urbana, fazendo o adolescente ver uma espécie de constelação de janelas pelas quais era possível ver, atrás de cada uma, uma história possível.

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A partir disso, Contardo Calligaris incentivava os adolescentes a inventarem histórias. Eles podiam ver uma mulher ali do outro lado da janela e o psicanalista perguntaria o que ela fazia e, se a resposta fosse "não sei", ele instigava a imaginação a funcionar mais. Com esse exercício, fazia com que fosse criada toda uma história, uma ficção narrativa. Para ele, isso era "reencantar o mundo" ao olhar pela janela e ver várias histórias possíveis e interessantes, mudando aquele primeiro olhar apagado e desatento. Ele acabou por converter a brincadeira em técnica de terapia.

Partindo dessa técnica, o que desejo levantar é a seguinte questão: como vemos o mundo à nossa volta? Ele não parece frequentemente como para o adolescente lacônico do exemplo, apenas como uma massa cinzenta que surge diante de nós como "um monte de prédios"? Por experiência própria, digo que sempre tive esse olhar: tudo está um pouco morto, sem vida e a cidade vazia de alma. Mas não é bem assim. Por vezes relegamos a imaginação, a vida e a magia ao mundo da ficção, deixando que nosso mundo permaneça desencantado e sem encanto.

Esquecemos que a vida é território de coincidências inacreditáveis, de aventuras inesperadas e também da essência das tramas que alimentam o mundo da ficção com seu drama. Portanto, ver o mundo com outros olhos pode ser uma maneira de reencantá-lo e, dentro de nós, reencontrar a habilidade incrível de imaginar. Imaginar pode ser reencantar o mundo, ver beleza no que está coberto por um tom sépia imposto pela normalidade do dia a dia; é ver beleza nas pequenas coisas e entrar em contato com a chamada alma do mundo.

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A imaginação, a exploração das possibilidades através da imagem, ela é subestimada. Por isso um exercício simples como o mencionado por Calligaris pode mudar o nosso dia, colorindo a paisagem e também nossa disposição, esta que em alguns dias é tão apática. O mundo é mais que a massa cinza.

Essa é uma breve reflexão que trago citando o exercício do psicanalista: podemos exercitar mais a imaginação e ver o mundo como um lugar cheio de vida. Através disso, também podemos animar (pensando no latim para alma que é anima) um pouco mais da nossa vida e do mundo que nos cerca.

Fontes
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Interessante essa reflexão. Isso me lembrou de um questionamento sobre viver uma realidade triste ou uma ilusão feliz. Qual seria o mais "válido"? Na verdade essa pergunta não tem uma resposta objetiva, vai muito da personalidade e do momento de vida que cada um passa. Eu por exemplo tenho uma tendência muito grande a abraçar a realidade e encara-la de frente, mesmo que ela me desagrade profundamente. Mas a maioria das pessoas que conheço tem o lúdico como um porto seguro, uma escapatória necessária da realidade.

Sim, entendo bem isso. Sempre fui fã dos estoicos pelo contato "verdadeiro" com a realidade, aceitá-la como ela é. Já sobre o exercício que mencionei no texto, gosto de pensar nele como uma mudança na visão, perceber a realidade com uma profundeza um pouco diferente, ver ela como algo vivo e cheio de possibilidades. Os escapismos podem ser perigosos, apesar de servirem, às vezes, como esse porto seguro que mencionou. Precisamos escapar um pouco em algumas situações :)
Obrigado pela leitura e pelo feedback!

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Verdade! Por isso adoro grandes metrópoles e cidades, por mais muitos odeiem o caos urbano, isso me atrai e me faz imaginar que tipos de histórias se cruzam o tempo todo, sem ao menos percebemos ^^

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Sim, por mais que eu prefira o interior e o mato, é muito importante reconhecer que todo lugar tem sua própria alma e suas várias histórias!

Que grande texto, @flaviusbusck! Além de lindamente articulado, lembra-nos que temos ferramentas para nos encontramos e para encontrarmos, no nosso entorno, um sem fim de possibilidades e oportunidades só mudando a perspectiva e indo além do visivelmente claro.

Obrigadinha. Foi um prazer ler seu texto ;)

Muito obrigado pela leitura e pelo comentário. E é bem isso, dispomos das ferramentas para nos encontrarmos e para encontrarmos as possibilidades ao redor de nós. Pode ser difícil encontrá-las muitas vezes, mas elas estão lá!

É engraçado que estão praticamente no nosso colo e, mesmo assim, isto tudo ainda requer algum exercício. Fácil e difícil ...
E dá-lhe paradoxos pra tudo ficar com mais graça!!!! XD

Вітаємо.

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Дуже дякую!
Але я живу у бразилії і говорю трохи про українському. Діаспора тут!
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Que texto, @flaviusbusck !
É impressionante o quanto um olhar mais atento pode nos fazer enxergar coisas belíssimas e mudar nossa perspectiva sobre uma porção de coisas (segundo o experimento do Contardo).
Com meus alunos de música, eu sempre peço para que eles "ouçam" música e não apenas "escutem".
Apenas escutar é deixar a música como plano de fundo e resumi-la apenas a "sons acontecendo", o que deixa tudo muito mais pobre. Quando ouvimos, prestando atenção em cada detalhe, em cada instrumento e etc transformamos a canção em algo muito mais profundo.
Obrigado pela postagem!

Fantástica observação!
Trata-se bem disso: não escutar, mas ouvir. Não enxergar, mas ver. É sempre na direção de mais alma e menos automatismo, é um sentido de buscar mais profundidade e consciência das coisas que surgem diante de nós. Agradeço pelo comentário e pela observação!

Parabéns, seu post foi votado e compartilhado pelo projeto Brazilian Power, cuja meta é incentivar a criação de mais conteúdo de qualidade, conectando a comunidade brasileira e melhorando as recompensas no Steemit. Obrigado!

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Palavras muito bem colocadas, ótimo post!!! Eu gosto muito de psicologia e de como uma simples pergunta pode mudar nossa visão. Depois que comecei a fazer terapia e praticar meditação diariamente, passei a ver o mundo mais vivo e observar e ter gratidão pelo presente momento é uma das coisas mais importantes que aprendi. Obrigada por dividir um pouquinho da sua vida acadêmica conosco 😊

Fico feliz que tenha gostado, e também fico pela sua experiência com a terapia e a meditação. Também acho incrível como uma pequena pergunta ou reflexão pode mudar tanta coisa assim, do nada. A apreciação do presente é outra chave bem importante nisso tudo.
Obrigado pela leitura! :)

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