Os influenciadores da Violência - Parte Um - Cultura e Contexto Social

in psychology •  2 years ago  (edited)

Realidade social: violência, poder e mudança
Os influenciadores da Violência - Parte Um - Cultura e Contexto Social


Nos últimos posts sobre Violência, falámos sobre os aspectos biológicos e psicológicos do comportamento agressivo, como a frustração o influencia e como isso é determinado pelos modelos de aprendizagem social desde a infância, bem como os despoletadores presentes na situação.
Nesta parte 1, vamos ampliar a nossa visão sobre a influência do contexto cultural e social e, na parte 2, analisaremos os aspectos da personalidade, da cognição e do meio ambiente.

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I - Influenciadores Culturais

1- A cultura está ligada ao comportamento agressivo?
Estudaremos os aspectos culturais como valores e normas sociais que potencializam ou reduzem a emergência de agressão na interação social humana. Mas esteja ciente de que os comportamentos agressivos não podem ser suprimidos, levará milhões de anos na ascensão da humanidade para implementar regras sociais para reduzir a violência, porque ela é inerente ao homem e à humanidade.
Os atos sociais da Violência são sempre uma função de como a sociedade e as representações sociais de comportamentos agressivos a recompensam ou não.

1.1 - Defletores de Cultura e Violência.
Defletir em termos psicológicos significa fazer com que algo mude de direção, ou desviar alguém dos seus objetivos pretendidos, não recompensando com reforço positivo ou até mesmo fazendo com que as pessoas entendam as motivações subjacentes para seus comportamentos.
Na nossa cultura tem sido cada vez mais incorporado, um tecido social de impulsionadores da violência e os sintomas na realidade são claramente visíveis.

"A pobreza é a pior forma de violência. Mahatma Gandhi
Gustave-Nicolas Fischer explica que a evolução cultural é a transmissão e renovação de normas e valores sociais, que são os reguladores da violência social.
O sociólogo americano Alvin Gouldner, em 1960, fala sobre a norma da reciprocidade como um estabilizador de contato social com a função de evitar a exploração dos fracos pelos fortes.

Donald T. Campbell, em 1978, estuda a evolução cultural afirmando que o biológico e a evolução têm os mesmos princípios, de modo que "evolução social age sobre as crenças codificadas, as normas morais e as regras de organização social".

A evolução biológica acabaria por se basear no princípio de que o que é bom para o grupo é o melhor para o indivíduo, deixando de lado todas as tendências para o conformismo cultural, porque a cultura pode resistir à inovação mesmo que seja boa para a sobrevivência.

"Cada um tem que encontrar a sua paz a partir de dentro. E a paz para ser real não deve ser afetada por circunstâncias externas." - Mahatma Gandhi
Gouldner dividiu normas e valores sociais nas três normas de reciprocidade, responsabilidade social e equidade.

1.1.1 - A Norma de Reciprocidade

Gouldner estudou o aspecto da reciprocidade na maioria das culturas é ajudar a todos que nos ajudaram e nunca os feriram.
A reciprocidade deve ser um estado pró-ativo de evitar o mal apenas por causa disso.
Ele apontou 4 fatores que influenciam a reciprocidade: as necessidades das pessoas, os recursos existentes, a motivação e as intenções pacíficas (ou não) dos interventores.

1.1.2 - A norma de responsabilidade social

Gouldner descobriu que Reciprocidade não funciona quando alguém é dependente por não é capaz de retribuir como por exemplo os que são jovens ou velhos, e é aí que aparece a Norma de Responsabilidade Social com substituição.

1.1.3 - As Normas de Equidade e Justiça
A psicologia social sempre se interessou pelas normas de justiça, que para mim são o fundamento da igualdade, equalidade e humanidade.
Uma das maiores violências do poder sobre as pessoas é conformá-las com a extinção do seu próprio eco-sistema, devido á atividade humana insustentável principalmente por parte da insaciabilidade psicopática da geração do lucro, que retira da equação a sustentabilidade do planeta e dos valores humanos.

II - Fatores de Personalidade

Nas classificações orientadas pela intenção, podemos encontrar agressão instrumental (orientada para a realização de objetivos específicos), agressão construtiva (orientada para a construção), agressividade destrutiva (orientada para a destruição, dano) e agressão frustrada (orientada para liberar energia ou frustração).
"A emoção mais antiga e forte da Humanidade é o medo. E o tipo mais antigo e mais rigoroso é o medo do desconhecido" - H.P. Lovecraft
1 - História individual e socialização
A incerteza de uma situação pode gerar violência, às vezes para compensar a timidez, problemas de inferioridade ou sociais como o racismo, o etnocentrismo, ou para mascarar o desejo da preservação e dominação do poder.
Nós vemos agressão quando as pessoas tentam defender suas vidas, liberdade, reputação ou posses.

O desenvolvimento da criança está sempre ligado ao ambiente familiar e estabelece o caráter violento ou não violento e que será visto nas várias fases de suas vidas.
Comportamento agressivo no início da infância, será visto novamente na adolescência e depois como adulto jovem.
Os pais devem apoiar o desenvolvimento afetivo para ajudar as crianças a obter aunidade para o autocontrole e fornecer modelos e referências para orientar seu comportamento de socialização.

2- Perda de controle e identidade
A perda de controle acontece em situações em que as pessoas sentem que não podem fazer nada para dominá-la.
Total falta de controle pode inibir a agressão, mas podemos ver muitos comportamentos de raiva gerados pela sensação de não poder controlar o mundo externo.
A psicose cultural é um bom exemplo de pessoas vindas de outras culturas que não têm a capacidade de integrar e compreender os valores da nova sociedade, levando a comportamentos inadequados ou inadaptados, às vezes com reações agressivas.

A perda de identidade aumenta as reações agressivas, como Festinger, Pepitone e Newcomb mostraram em experimentos onde as pessoas não podem ser identificadas porque usam máscaras e roupas grandes sempre mostrarão mais agressões verbais umas contra as outras.
O experimento Zimbardo da prisão onde as pessoas divididas em guardas e prisioneiros, mostrou que a agressão foi tão alta que eles tiveram que parar o experimento.
A supressão de iniquidades sociais no grupo de guardas potencializou o seu comportamento violento, e os prisioneiros mostraram condutas agressivas expressando sua incapacidade de fazer algo sobre a situação.

3 - Desaprovação social e culpa
O medo da desaprovação social diminui o comportamento agressivo, porque as pessoas que não temem a desaprovação tendem a mostrar uma conduta mais violenta.
Por outro lado, verificou-se que a violência de alguns criminosos está relacionada à ausência de culpa e insensibilidade aos sentimentos dos outros aumenta a violência e é um sinal visto na maioria dos comportamentos psicopáticos.

4- Personalidades Violentas
Estudos feitos em indivíduos violentos com história de violência têm traçado alguns traços de personalidade comuns a esse grupo.
O primeiro é o homem violento que é caracterizado por um sentimento de autossegurança, uma má opinião e medo dos outros, sempre desencadeia um comportamento agressivo à menor provocação.
O segundo tipo é o "introvertido" que tem um comportamento infantil remanescente de pensar nos outros como seus próprios objetos de satisfação e desejos. Se isso não acontecer, eles mostram um forte comportamento violento para destruir aquele que "interrompe"sua satisfação.
O próximo post é a parte 2 sobre os influenciadores da violência dos Fatores Sociais, Cognitivos e Ambientais.

Últimas publicações nesta série:

Introdução:
A Realidade Social: Violência, Poder e Mudança

Violência:
Uma Introdução à Violência
Os Conceitos de Violência, Agressão e Agressividade
As teorias da Violência
Os influenciadores da Violência - Parte Um - Cultura e Contexto Social - este post

Artigos da próxima série de publicações sobre Realidade Social, Violência, Poder e Mudança
Violência:
Os influenciadores da Violência - Parte 2 - Fatores Sociais, Cognitivos e Ambientais
A ascensão da violência de hoje
Poder:
O que é poder?
A Natureza do Poder
A Dinâmica do Poder
Os efeitos e conseqüências do poder
Mudança:
Mudança e Cultura
As teorias e a conceptualização da mudança
Fatores que determinam a mudança
Os caminhos da mudança
Mudança social
Referências de livros consultados:
Les concepts fondamentaux de la psychologie sociale - Gustave-Nicolas Fischer
La psychologie sociale - Gustave-Nicolas Fischer
A dinâmica social-violência, poder, mudança - Gustave-Nicolas Fischer Planeta/ISPA, 1980
Gustave-Nicolas Fischer é Professor de Psicologia e Diretor do Laboratório de psicologia na Universidade de Metz.
French, J. R. P., & Raven, B. H. (1959). The bases of social power. In D. Cartwright (Ed.),Studies in social power. Ann Arbor, MI: Institute of Social Research
Castel, R. As metamorfoses da questão social. Vozes, 1998.
Moscovici, S. (1976).Social influence and social change. London: Academic Press.
Michel Foucault, Discipline and Punish: The Birth of the Prison

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Mais um incrível post. Essa semana trarei hoje seus posts no @brazilians, em um trabalho que faço para trazer a linguagem ao grande público. Ainda que tenha dificuldade em trazer da forma suave que traz. A psicologia social é uma área que venho aprendendo, ainda que esteja navegando mais ao individual. E seu trabalho adiciona em muito ao que propomos no nosso projeto. Qualidade e conteúdo que propões trazer uma teoria a ser interpretada, com base na teoria. Nesse post trago mais opinião e interpretação dos posts, e reservo aos meu posts uma leitura mais teórica. Acho interessante do seu post a construcao que vai do individual, ao coletivo, o que é dificil trazer, e muito pertinente, esquecemos no nosso fantasma o passado, por mais que nossos pensamento tenham dificuldade de se restringir ao presente, e construções assim localizam melhor a transmissão desse conhecimento. Parabens pelos posts! Sempre acompanho aqui para aprender mais um pouco!

Muito obrigado pelo cumprimento e motivação.
A psicologia social foi a área que mais me fascinou, pela multipilcidade de fatores envolvidos.
Terminei hoje a série sobre a violência e mais uma vez escrever estes textos cria uma catarse e uma consciencialização mais aguda destes problemas e que tem uma boa consequência na compreensão e interação com o meu filho.
Uma boa teoria ajuda sempre na prática.
Meus proximos posts são sobre o Poder que tem muitas correlações com a violência.

muito bom o post.

Muito Obrigado

É realmente um privilégio acompanhar os teus posts! Todos eles nos fazem pensar nos problemas das sociedades modernas e como poderá ser a nossa postura face às influências e à propaganda que nos entra diariamente em nossas casas.
Uma vez mais o meu muito obrigada pelos temas abordados.
Beijinhos!

Muito Obrigado minha amiga.
O atual estado das coisas cada vez mais pede uma intervenção de tipo pedagógica para a consciencialização dos meandros do império decadente centralizados.
A grande lição histórica sobre o fascismo é que ele acaba sempre por cair mas ninguém consegue predizer quando e quantas vítimas vão ser feitas.
As comunidades descentralizadas no território a-geográfico do ciberespaço, são uma esperança alternativa para a construção dum novo consenso para o Mundo.