‘The Knick’, do macabro ao realista
The Knick não merece de todo o rótulo pesado de série cancelada que muitas vezes impede a aposta do espectador. Não só por causa da sua qualidade, que é evidente, mas devido ao facto de ter um fim digno e concreto. Recorde-se que o projeto foi cancelado pelo canal Cinemax após duas temporadas. Ao contrário doutras excelentes séries canceladas como Firefly ou Deadwood que tal como The Knick criaram um restrito mas fiel grupo de seguidores, este projeto de Steven Soderbergh, conhecido por Ocean’s Eleven (2001) ou Traffic (2000), estava desde logo destinado a remodelar o elenco ou mudar de época e cenário a cada duas temporadas, formato esse que está na berra. Por isso, apesar de não ser uma aposta a longo prazo, que fique estabelecido para os que germinam a vontade de dar uma franca oportunidade aos seus vinte episódios: este excelente pedaço de televisão contemporâneo tem um princípio, um meio e um fim.
The Knick retrata a vida profissional e pessoal de John Tackery, um cirurgião repleto de ideias inovadoras, e dos gestores e funcionários duma versão fictícia do hospital Knickerbocker em Manhattam, mais conhecido como The Knick, durante o princípio do século XX. Inspirado parcialmente na lenda da Medicina, William Stewart Halsted, Dr. Tackery é o expoente máximo do talento de Clive Owen. Uma personagem magnetizante, torturada por demónios internos, brilhante. Que se retirem imediatamente do pensamento os olhos verdes e charmosos do ator britânico e a comparação possivelmente instintiva com os McDreamys desta vida, neste caso de Grey’s Anatomy. Não. Imagine-se antes um toxicodependente que injeta cocaína nos dedos dos pés no chão sujo dum bordel atrasando-se para a sua próxima cirurgia. Operação essa que, minutos mais tarde, poderá vir a acrescentar uma nova página aos anais da Medicina, mas também enojar o espectador mais sensível que foi apanhado desprevenido pelo realismo sangrento das cenas operatórias. Fica o aviso, The Knick pode dar a volta ao estômago. Assim como dá a volta a questões sobre as quais o comum dos mortais, habitantes deste mundo desenvolvido dos antibióticos e analgésicos, provavelmente nunca pensou: os primórdios da cirurgia moderna. Como se anestesiavam os doentes, como decorriam a maioria das cirurgias, a ignorância que existia em relação ao corpo humano e à maioria das substâncias, inclusive drogas que, hoje em dia, são consideradas ilegais. “Somos um hospital. Precisamos de cocaína para existir.”, diz Tackery num dos episódios. A quantidade de temas e questões prementes é empolgante, o que torna The Knick uma série interessantíssima para os interessados nestes assuntos que, caso fiquem e se agarrem ao agarrado Dr. Tackery, serão, certamente, apanhados numa bola de neve que cresce a um ritmo moderado e que os transportará para um retrato de época que vai do macabro ao realista, que alterna entre as ruas escuras e mal lavadas de Nova Iorque e o auditório de operações divino e branco do Knickerbocker.
Porém, a personagem interpretada por Clive Owen não chega, não atinge o nível de sumo suficiente para fazer jus aos elogios de que a série foi alvo, não por falta de complexidade, mas devido à urgência que o próprio argumento coloca no ar de que outras personagens sejam exploradas e funcionem como porta para o descortinar crítico da sociedade racista, corrupta e feia que imperava na metrópole americana no início de século. É, portanto, nas personagens secundárias que está o coração do sonho translúcido, quase dantesco, que se faz da sociedade pseudo civilizada em The Knick. Destaque para o Dr. Algernon Edwards, interpretado por Andre Holland. Um cirurgião negro educado em Harvard e treinado na Europa que, apesar do seu currículo recheado e talento inegável, tem de lutar contra os entraves colocados pelo racismo para exercer a sua profissão. E para a enfermeira Elkins, interpretada por Eve Hewson. Filha de Bono, o vocalista dos U2, permita-se a curiosidade. No seu caminho para o desabrochar profissional, esta tem de enfrentar o inevitável machismo do meio que a rodeia e aprender que nem tudo se consegue através do talento. É neste cruzar de personalidades e motivações que The Knick cresce, principalmente na segunda temporada, e ameniza o efeito atordoante da sua personagem principal fora do vulgar, quase descontextualizada. Uma espécie de Bruce Wayne macabro, sem máscara palpável, que salva vidas numa Gotham arcaica assolada por doenças quase desconhecidas. O seu inimigo não é o finório e imprevisível Joker, mas sim o atraso científico, a ignorância que elevava a taxa de mortalidade nos hospitais a níveis astronómicos.
Apesar da audácia de recomendar uma série que foi cancelada já ser suficiente, que se seja ainda mais atrevido e que se diga que, provavelmente, este será o melhor drama médico de sempre. Quanto ao seu realizador e produtor executivo, Steven Soderbergh, cujo estilo é identificável neste projeto, põe em prática todos os aspetos positivos da sua cinematografia e consegue criar um mundo negro e absorvente. Para isto, contou com a ajuda do seu colaborador de longa data, o ex-baterista dos Red Hot Chilli Peppers, Cliff Martinez, que oferece a este drama uma banda sonora hipnotizante. O seu estilo moderno e sintético cai que nem uma luva nos ritmos da série, transformando os seus momentos mais parados num poço de urgência, numa bomba relógio que não rebenta, mas que faz o tempo passar duma forma vertiginosa. Quando se dá por ela, o episódio acabou e sobra apenas a ânsia por mais. Pena que não vá haver mais.
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