A tarde vai despindo... ...múltiplos olhares em forma de raios de sol dum laranja escuro e quente. Estamos num bar, numa taberna, não sei bem que nome dar a este lugar. As paredes reflectem os tons da tarde já quase despida numa provocação de cor e afectos. A densidade do que não se vê torna perceptível no ar cada olhar intrometido que o sol lança por entre as portadas.
Atrás do balcão, onde estranhamente silenciosa gira uma ventoinha que só aqui poderíamos encontrar, dorme, parece-me a mim, profundamente, a única pessoa além de nós que podia ouvir a música que de longe nos envolve. Tão envolvente que só deu tempo para que aquele homem que dorme, parece-me a mim, profundamente atrás do balcão, nos servisse duas bebidas. Não sei o nome nem consigo distinguir todos os sabores, são vários e contrastam. Sei que nos refrescam e ao mesmo tempo aquecem-nos ao ritmo da música e da luz quente que insiste em entrar por aquela portada de janela. É estranho mas tremendamente intenso e saboroso.
Passa por nós a brisa que numa cadência quase irrepreensível sai daquela ventoinha.
Olhamo-nos, as percepções de tudo o que nos rodeia entrelaçam-se, e fundidas numa única sensação desvanecem-se ao ritmo duma vontade única.