Poema: "Cântico Negro" (José Régio)

in #pt6 years ago (edited)

Sendo de humanas em muitos aspectos, eu sempre adorei poesias, poemas e diversas outras artes da escrita.

Apesar de apreciar obras de várias classes literárias a que mais me cativou foi o Simbolismo, com seus poetas tempestuosos e revoltados, principalmente Baudelaire, um dos precursores do movimento junto com o nosso, não menos importante, Cruz e Souza.

Portanto, hoje vim trazer de presente um dos poemas mais incríveis do mundo literário. Eu o conheci há muito tempo, quando um professor de literatura portuguesa o interpretou em uma aula de um curso pré-vestibular e eu me apaixonei imediatamente.

Ouso até dizer que é o poema da minha vida! Forte e intenso! Se chama Cântico Negro e seu autor é o José Régio, um poeta e escritor português.

E mesmo que a obra seja de muitos anos depois, ainda há grande proximidade com o Simbolismo, pelo seu estilo. Venham admirá-lo:

Cântico Negro (José Régio)

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços e, seguros,
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
Eu cruzo os braços
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí!
Só vou por onde me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos
A ir por aí...
Se vim ao mundo
Foi só para desflorar florestas virgens
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos
E tendes regras e tratados, e filósofos e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma e sangue e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou
É uma onda que se alevantou
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou
Não sei para onde vou
Mas sei que não vou por aí!

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