O Autista e a Alma das Máquinas

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Não sei se o termo certo para a condição dele era autista. O que sei é que ele passava muito tempo assistindo aquela velha televisão. Uma TV que ainda recebia sinais UHF e que passava programas ruins que ele nem prestava atenção.

Quase toda sua atenção estava voltada para os padrões de interferência que apareciam nas imagens chuviscadas, pois era partir deles que conseguia saber de muita coisa que acontecia nas redondezas. Ele sabia quando um liquidificador era ligado, quando o motor de arranque de um carro acionado, quando secadores de cabelo trabalhavam, quando ligavam e desligavam-se outras TVs e até mesmo via rádios a pilha sintonizando canais. Ele podia saber exatamente quando alguém ligava alguma coisa, e era capaz de identificar cada um dos equipamentos.

Baseado no que via da janela do seu quarto, podia até estabelecer a relação entre as pessoas e equipamentos, embora na sua mente parecia que quem realmente controlava aquele mundo eram as máquinas.

Certo dia, um tênue padrão insistiu em permanecer na tela da sua TV. Pensando ser o caso da antena ter se desalinhado, foi até o terreiro virar a antena. Mas, chegando lá, só de olhar a antena viu que não era esse o problema. O alinhamento estava preciso, exatamente 42 graus com o sentido norte-sul. Então, intrigado, ele permaneceu olhando o céu por algum instante. Foi quando viu que havia algo lá.

Ele tinha uma capacidade apurada para identificar padrões, e foi por isso que pode ver que havia um objeto movendo-se no céu. Um objeto que usava algum recurso para ficar invisível, mas que não era capaz de enganá-lo.

Ele observou o objeto – tendo consciência exata de sua trajetória – pois usava como referência a sua antena. Ele soube exatamente onde ele pousou em um ponto afastado da cidade.

Ao voltar, viu que a interferência tinha desaparecido. Ela fora provavelmente provocada pelo objeto. Sem se alarmar com o que tinha visto, continuou ali assistindo na sua televisão o agitado mundo das máquinas em sua incessante atividade (ligando, operando, desligando, ligando, sintonizando…).

Mas, a partir daquele dia, passou a acompanhar a atividade daquele objeto, que para ele era apenas uma outra máquina. Bastava ver aquele tênue padrão de interferência na TV que corria até o terreiro para observar o objeto.

Certamente aqueles que estavam dentro do objeto voador eram alertados por sensores que varriam os arredores detectando ameaças. E deve ter sido assim que foram alertados sobre alguém sempre os observando. Alguém que sabia exatamente quando iam aparecer, alguém que os podia ver, alguém que sabia onde aterrissavam.

Os alienígenas, então, resolveram investigar. Decidiram mandar um drone para sondar.

Foi assim que um passarinho apareceu no terreiro do rapaz. Era um filhote que aparentava não saber ainda voar direito. Ele foi acolhido pelo rapaz, num dia que tinha saído para observar o objeto.

Sendo o pequeno passarinho uma máquina sofisticadíssima, ele não interferia suficientemente na TV para ser visto. Mas o rapaz parecia quase perceber a natureza dele. Tanto que – estranhando a atenção que ele dispensava ao passarinho – a mãe do rapaz chamava o passarinho de Chuvisco.

Com olhos acompanhando a rotina dentro daquela casa, os alienígenas logo perceberam o que estava acontecendo. Decidiram, então, que a melhor forma de intervir seria utilizar a sua tecnologia para reverter o autismo daquele rapaz. A tecnologia dos alienígenas permitia fazer isso apenas com um feixe de energia eletromagnética modulada de forma correta. Eles podiam até usar o drone para fazer isso.

Porém, sendo os alienígenas criaturas dotadas de uma ética bastante desenvolvida, eles decidiram que o drone deveria permanecer com o rapaz, visto que ele teria a sua vida virada de cabeça para baixo quando a sua mente passasse a funcionar como a de um jovem de sua idade.

Alguns programas foram enviados para drone para ele cumprir a tarefa de ajudar o jovem na transição. E sendo o drone dotado de inteligência artificial, os alienígenas pensaram que ele poderia cumprir facilmente essa missão.

Foi num dia comum. Quando o rapaz acompanhava na sua TV o mundo das máquinas, ao lado de sua única companhia, o passarinho Chuvisco. Foi quando um padrão desconhecido apareceu na tela. Então, o rapaz olhou intrigado para o passarinho, e um feixe brilhante de luz foi dirigido diretamente para a sua cabeça.

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