Runas - Uma introdução

in #pt8 years ago

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Hoje falarei sobre esses conhecidos símbolos nórdicos que eram usados para escrever e hoje servem para ler a sorte e buscar autoconhecimento.

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Introdução

Resumidamente, as runas são as letras usadas pelos antigos povos germânicos (isto é, nórdicos, ou vikings na linguagem popular) para escrever. Porém, além da função caligráfica, as runas também encerravam em si uma qualidade misteriosa, sendo usadas para a leitura da sorte e práticas mágicas. Por essas características, estando elas ligadas a todo aquele cenário das florestas e mares frios, habitados por gente guerreira de cabelos, pele e olhos claros, elas ganharam muito espaço dentro da cultura.

Vemos as runas em desenhos animados, filmes, jogos de todos os tipos e em livros. Como exemplo, posso citar o mundo de Tolkien, onde os anões escrevem em runas que são baseadas naquelas antigas usadas no norte da Europa. Até o famoso símbolo do Bluetooth é uma bindrune (runas que são colocadas juntas para apresentar um único significado maior) composta pelas runas Hagal e Berkana. O nome Bluetooth vem do rei dinamarquês Harald Bluetooth, que unificou as tribos em um só reino. Caso se escreva seu nome em runas, as primeiras runas de cada palavra seriam Hagal (H/ᚼ) e Berkana (B/ᛒ).

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Como a elas são atribuídos poderes mágicos, existe toda uma vertente esotérica que busca seus significados ocultos e as práticas apropriadas a eles. Os chamados runomantes, os leitores de runas, apoiando-se em evidências históricas, utilizam das runas para práticas divinatórias e para o autoconhecimento. Da mesma forma, elas são utilizadas para diversos fins semelhantes, tais como meditação e a tentativa de influenciar magicamente o mundo.

A História

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Pente de harja

O objeto mais antigo encontrado contendo símbolos rúnicos foi o pente de harja, datado do ano 160 da era cristã. Há ainda o broche de Meldorf, um item que carrega inscrições que não se sabe bem se são rúnicas ou romanas, mas que data do ano 50 AD. Ou seja, as runas são comprovadamente utilizadas desde o ano 160 e há a possibilidade de que já estivessem em uso no ano 50. Obviamente, isso não garante que elas não estivessem em uso ainda anteriormente, mas apenas que a arqueologia dá margem a essas afirmações no presente momento. Tineke Looijenga afirma que é bastante razoável imaginarmos que as runas já fossem utilizadas antes da data dos achados mais antigos da arqueologia.

E de onde veio esse alfabeto? Quando falam de um alfabeto rúnico, tratam-no como uma invenção dos povos nórdicos, algo feito do nada para dar conta de uma necessidade intelectual de registrar informações permanentemente. A história nos conta que as runas germânicas surgem por influência dos povos itálicos localizados mais ao norte, sendo que o alfabeto usado por estes não era apto ao diferenciado idioma dos povos germânicos. Então os germânicos adaptaram aqueles alfabetos à própria linguagem. Assim, o desenvolvimento de runas teria sido feito a partir de alfabetos já existentes, como seu próprio traçado denuncia (notem como algumas letras lembram as do nosso alfabeto, como a Fehu, por exemplo).

Os alfabetos rúnicos são chamados futhark. Da mesma forma que alfabeto nos lembra de alfa+beta (a+b), a palavra futhark diz respeito às runas que iniciam a ordem do alfabeto rúnico mais antigo, o Elder Futhark; assim, futhark corresponde às runas Fehu, Uruz, THurisaz, Raidho e Kenaz, as 5 primeiras (ᚠᚢᚦᚨᚱᚲ). Acreditam que o uso do Elder Futhark organizado como conhecemos começou por volta do ano 200 e permaneceu em uso na Escandinávia até 800, quando foi reformado e virou o "Futhark Novo" (Younger Futhark), que contava com 16 runas ao invés das 24 do seu predecessor. Em terras dos frísios e anglo-saxãos, foi desenvolvido outro futhark estendido em até 28 letras. Também houve uma tradição rúnica no sul da Alemanha (séc. VI-VII). Assim, apesar de semelhantes, são vários os alfabetos rúnicos. É importante lembrar ainda que, apesar de serem alfabetos europeus, todos esses alfabetos em uso na Europa têm como origem o alfabeto fenício, que deu origem ao grego, latino, cirílico, rúnico e todos mais. Ao menos é a tese que mais se sustenta historicamente hoje.

As runas saíram de cena para dar lugar ao alfabeto latino em uso até hoje, evento que resulta da conversão dos nórdicos pagãos ao cristianismo. Porém, curiosamente, sabe-se hoje que em uma remota localização da Suécia chamada de Alvdälen, as runas estiveram em uso até cerca de 1900.

Pelo seu sentido místico, as runas passaram a ser revividas no século XIX e XX por místicos e entusiastas dos outros tempos. O aspecto mágico desses antigos alfabetos parece ter sido fator determinante nessa prática. Atualmente, as runas são muito populares, aparecem em jogos de RPG, em filmes, livros e são também utilizadas como ferramenta divinatória da mesma forma que é o tarô.

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Pedra rúnica em Tullstorpstenen, na Suécia

As runas e a magia

Essa é a parte que mais costuma fascinar as pessoas. Atualmente, as runas são usadas como sistema mágico. Tanto que até novos futharks foram desenvolvidos nos séculos passados, como é o exemplo do Armanen Futhark, desenvolvido pelo místico austríaco Guido Von List durante uma experiência mística que teve durante uma cegueira temporária após uma cirurgia.

Vale lembrar que, segundo os mitos, Odin fica nove dias e nove noites preso à Árvore do Mundo com uma lança no coração, numa espécie de sacrifício místico onde ele recebe o mistério das runas. Antes do episódio da Árvore do Mundo, Odin sacrifica seu olho esquerdo para beber da sabedoria de Mimir.

Mesmo com a rica mitologia ao redor do surgimento das runas e seu envolvimento com a magia, os textos das práticas divinatórias usando runas são, em boa parte, da Idade Média. Embora possam se basear em fontes mais antigas, deve-se ficar atento ao anacronismo existente nesse tipo de fonte. Não há registros arqueológicos claros de runas entalhadas com finalidade divinatória. Thorsson argumenta que isso seria consequência do fato de as runas serem entalhadas em materiais perecíveis ou que pudessem ser destruídos ritualisticamente. Não há também relatos diretos do lançamento de runas (as runas são lançadas para que se leia a sorte) na literatura nórdica antiga.

No entanto, evidências linguísticas apoiam a hipótese das runas sendo utilizadas como prática divinatória. Outra coisa que depõe em favor da prática é o relato do historiador romano Tácito em 98 depois de Cristo, no capítulo 10 do livro Germania. No trecho, ele fala sobre a "tiragem de auspícios" e "lançamento da sorte". Diz que os povos germânicos cortavam um galho de uma árvore frutífera em rodelas, assinalavam-no com certos signos (que imaginamos serem as runas) e lançavam os signos sobre um pano branco. Então um sacerdote, se a consulta for pública, ou o pai de família, se privada, oferece uma prese para aos deuses e, enquanto encara o céu, pega três rodelas, uma de cada vez, e através dos signos presentes nelas, interpreta seu significado.

O método retratado por Tácito é um dos principais utilizados hoje no lançamento de runas. Porém, como não há uma tradição ininterrupta desde os tempos antigos, os métodos atuais são reconstruções modernas do que se acredita ser o original método divinatório das runas.

O uso mágico das runas também é confirmado historicamente através de certas inscrições e trechos que mencionam runas sendo usadas para facilitar nascimento de crianças, proteger navios, aumentar a eloquência e várias outras coisas. A própria palavra "runa" vem da raíz germânica run-, que significa "segredo" ou "sussurro". Em outros idiomas europeus (como os celtas), a palavra carrega sentidos parecidos, sempre ligados ao misterioso e ao secreto. O mito de Odin também ilustra bem que as runas eram mais que um simples alfabeto para os povos germânicos.

Atualmente, com a explosão das runas na cultura popular e no reviver do mundo nórdico, vários novos usos foram encontrados para as runas. Nós temos as runas sendo utilizadas para a criação de posturas de um tipo de Yoga, as temos sendo usadas para meditação, ou sendo usadas em associação com a reconstrução de antigas práticas nórdicas, como o galdr, que é um tipo de canto mágico, ou o seidr, uma prática em maior parte feminina e que devia levar ao transe. Os usos são os mais diversos. O que é certo é que as runas ganharam muito espaço e são importante componente do mundo das práticas esotéricas.

As Runas e seus significados

Algo que deve ser esclarecido é que cada runa costuma ter um significado próprio. É como se cada uma correspondesse a uma noção arquetípica determinada. Temos coisa semelhante no alfabeto hebraico e possivelmente em outros mais. O significado de cada runa tem como fonte três "poemas rúnicos": O Poema Anglo-Saxão, o Poema Norueguês e o Poema Islandês. Esses poemas apresentam as runas e, para cada uma, oferecem alguns versos. Porém, os versos não são muito explicativos e muito do sentido das runas ficou a cargo da mentalidade dos escritores posteriores, especialmente os esotéricos. Então pode haver alguns desacordos entre uma versão e outra. Outro aspecto relevante é que esses poemas não são poemas dos tempos mais antigos; o inglês data do século VIII ou IX, o norueguês do século XIII e o islandês do XV. Ou seja, ainda há o risco de anacronismo.

Os significados normalmente mais atribuídos ao Elder Futhark (o mais antigo e mais usado entre os runomantes) são, de forma resumida, os seguintes:

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Infelizmente, só consegui achar em espanhol uma imagem com um significado menos distorcido das runas do Elder Futhark

Essa foi a minha breve introdução às runas. Caso alguém tenha curiosidades, podem perguntar!
Obs: Escrevi esse texto a pedido do amigo @thomashblum que gostaria de saber mais sobre o tema. O texto também tem a função de ser mais realista quanto à história, não se perdendo em especulações que são puramente modernas e as pessoas tomam inocentemente como se fossem realmente elementos de uma tradição milenar ininterrupta.

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REFERÊNCIAS

LOOIJENGA, Tineke. Texts and contexts of the oldest runic inscriptions. Boston: Brill Leiden, 2005.
THORSSON, Edred. O Oráculo Sagrado das Runas: Autoconhecimento e Orientação pelo Sistema Divinatório Milenar dos Povos Nórdicos. Tradução de Marcello Borges e Karina Geannini. 1. ed. São Paulo: Pensamento, 2013.
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Nossa, sensacional esse post! Estou estudando as Runas a algum tempo e tenho praticado para me tornar um Runemante.
Estava para fazer um post parecido com o seu, acho que cheguei um pouco tarde na festa... hehehe Mas sempre bom de ler de outras fontes e saber que tem mais gente estudando aquilo que a gente estuda.
As runas são letras, mas também portais energéticos, que podem canalizar ou afastar determinadas energias. Achei muito massa esses poemas sobre o significado das Runas, não conhecia.
O livro base de meus estudos é o "Mistérios Nordicos" da Mirella Faur, que traz um belo apanhando do panteão nórdico, das runas e dos rituais.
Não sou muito bom em fazer comentários grandes, mas gostaria só de fazer uma correção: O Futhark leva esse nome pelas 6 primeiras letras, não 5. Faltou a Ansuz na sua explicação.
Vou escrever meus post em breve e adoraria ouvir sua opinião sobre eles. Vc também pratica o Runemal?
Forte Abraço!

Poxa, escapou Ansuz, que é uma runa muito importante por se associar com o poder divino.
Mas então, eu quis fazer um texto desmistificando um pouco da fantasia que se criou ao redor das runas. Frequentemente, os textos criam todo um contexto que não é muito fiel às runas num sentido histórico. Por isso eu gosto do Thorsson (que é um pseudônimo do Stephen E. Flowers). Ele é bem sério e honesto em falar que a noção que temos de runas é em muito uma reconstrução.

Aguardo seu post! Quero ver mesmo!
Eu estava aprendendo a jogar as runas pelo método do Thorsson. Vez ou outra ainda as lanço por um dos métodos que ele especifica (baseado no Tácito).

A ideia das runas como canais energéticos se liga à representação que elas têm dos conteúdos arquetípicos. Cada uma representa uma força primordial. Uma energia (até mais do que uma "coisa" ou um conceito simples). Isso é muito interessante. Se as leituras dos seus significados estiver certa, cada uma canaliza um tipo de energia ou atividade primordial.

Abraço!

Saudações, flavius.

Muito boa sua explicação man, me lembro delas pois jogava joguinhos de rpg quando era mais novo. No "tibia" existiam muitas dessas runas hehehe!!!! Meu personagem lá eram mais famoso por fazer runas relacionadas á cura.

Imaginava que elas foram criadas dentro de culturas que cultuavam mais algo místico. Com sua explicação, tudo ficou mais esclarecido agora.

Obrigado e boa noite!

Salve, @julisavio !
Eu também já joguei tibia! Lembro que tinha as palavras pra gravar as runas no Tibia. Não lembro com detalhes. O que lembro, apesar de não ser runa no jogo, era do Utani Hur, para correr mais rápido. Mas a ideia de criar "runas" era baseada bem nisso! Apesar de que lá não era bem um alfabeto, mas no sentido de um item mágico "consagrado" para operar de certa forma. É bem o que falei, elas são muito usadas em jogos e na ficção em geral. O impacto cultural é muito grande. E é bacana pensar nesse legado místico dentro das culturas antigas europeias.
Obrigado pela leitura e pelo comentário!

Parabéns, seu post foi selecionado pelo projeto Brazilian Power, cuja meta é incentivar a criação de mais conteúdo de qualidade, conectando a comunidade brasileira e melhorando as recompensas no Steemit. Obrigado!

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Já usei muitas runas na vida. Dos MMORPGS da vida hahahaha.

Gostei muito de saber a respeito delas. Confesso que tinha um pouco de ideia a respeito, mas nunca procurei saber mais...

Agora do Bluetooth... Fiquei impressionado. Essa eu não sabia mesmo!

Abraço

Sim, tem muita coisa de runas nos jogos. Tanto que, se você for pesquisar no google imagens, muitas vezes irá encontrar mais coisa de jogo do que das runas de verdade Hahahhahaha
Fico contente que tenha gostado! Obrigado pela leitura e pelo feedback!

Interessantíssimo meu amigo! Sempre tive curiosidade a respeito! Achei ótimo saber um pouco mais. Ainda ficam dúvidas, como por exemplo, dito que existem variações das runas originais, qual é a mais utilizada e a mais "tradicional, verdadeira"? Os significados dados a elas nessa última etapa explicada por você, são, assim como o costume de "lê-las, uma tradição posterior que não condiz completamente com o seu uso original? Não ficou muito claro essa questão dos significados, se lá no passado profundo, já eram utilizadas separadamente como símbolos de poder ou não.
Inclusive, o fato desses "poemas" serem tão posteriores e de datas diferentes, como saber de sua oficialidade? O que torna por exemplo o terceiro, mais recente tão confiável quanto o primeiro poema?

Olhei ali a runa "sowellu" se é que está correto a grafia e percebi que é um símbolo comum do nazismo, confere? Eles utilizaram este em específico não é mesmo? É um significado poderoso, "Completo"... E achei fascinante descobrir sobre o Bluetooth!!!
Obrigado pelo post :)
Voto e resteem!

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