Vínculos fragilizados e a miséria social

in #pt2 years ago

Com certeza todos nós já paramos para pensar no porque de uma relação não ter dado certo. Ou no porque não conseguimos nos relacionar bem com alguns parentes, inclusive pai e mãe. Ou até naquela amizade que era mais próxima que um irmão e de repente sumiu. Questionamos sempre a natureza e qualidade dos vínculos que criamos, ou pelo menos deveríamos fazê-lo com alguma frequência.

Fato é que os vínculos são sempre construídos ao longo da história e da convivência de duas ou mais pessoas. É um sistema que tende ao equilíbrio dinâmico, através de mecanismos como a empatia, a admiração, o respeito, a compaixão, a identificação e várias outras formas de nos relacionarmos, podendo elas serem concomitantes ou não.

Alguns tipo de vínculos são socialmente considerados mais frágeis e superficiais, como colegas de trabalho e "ficantes", enquanto outros habitam o imaginário popular como sendo inerentes ao papel social que assumimos, como mãe-filho por exemplo. Mas na realidade não existe vinculação natural e inata entre ninguém neste mundo. Tudo é construção.

Você pode ter a sorte de ter alguém que se vincule com facilidade a você desde o seu nascimento, como pode passar toda uma vida sem saber o que é uma ligação afetiva genuína.

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Quando o ser humano vive em contextos de escassez, abandono, marginalização e múltiplas restrições e/ou violações, ele costuma se voltar para si mesmo e para a própria sobrevivência. Quanto mais tempo vivendo em condições inadequadas à dignidade do ser humano, maior a dificuldade de vinculação com o outro, pois a própria existência já se torna responsabilidade urgente e inadiável. Não há lugar para o outro.

E assim vemos mães e pais que não são capazes de proteger e cuidar. Famílias que se dissolvem no meio das discussões e implicâncias. Irmãos que se ignoram. Idosos abandonados. Adolescentes nas ruas. Casais que se distanciam até o ponto em que começam a se agredir de alguma forma, cada um tentando preservar da pior forma, o pouco que lhe resta de amor próprio. Cada um lutando pela própria sanidade, tentando lidar com as consequências de escolhas que eles mesmos fizeram, ao mesmo tempo em que precisam lidar com as consequências de viver em uma sociedade que não se importa nem um pouco de eles terem nascido nas piores das desvantagens.

O fim desse filme todos nós sabemos, e é muito triste. Profissionais que trabalham com políticas sociais geralmente estão sempre atentos à fragilização dos vínculos familiares e comunitários, pois ela representa um rasgo na rede de proteção social, a qual deveria oferecer segurança e suporte nos momentos mais difíceis na vida de uma pessoa. Estamos sempre buscando o tal do fortalecimento de vínculos, que é a experiência de sentir-se aceito, querido e protegido. E também de sentir empatia, carinho e cuidado com o outro.

Para muitos pode não fazer o menor sentido, mas para quem passou por abandono familiar e social durante sua história pessoal, um único vínculo de qualidade pode salvar sua vida. Salvar no sentido de inspirar força, esperança, auto-cuidado e gratidão.

O mais triste disso tudo é que, no nosso trabalho diário na assistência social, estamos sempre percebendo o quanto as pessoas estão cada vez mais fragilizadas e esgotadas em relação à própria existência.

Quando estamos de saco cheio de tudo, pensamos em largar tudo e sumir de vez. Mas aí o desespero passa e seguimos em frente. Acontece que muitas, mas muitas pessoas, vivem em completo desespero há anos, e largam tudo e somem mesmo. Não só pais irresponsáveis. Mas também mães sofridas. Filhos que se sentem inadequados. Pais cheios de calos nas mãos e no coração. Parceiros que se sentem sós. Empregados cansados de trabalhar e nunca verem suas dívidas quitadas. Fora tantos outros que não largam tudo, mas encontram um meio de sumir no meio do uso abusivo de substâncias que os ajudam a esquecer um pouco a angústia de existir subsistindo.

E assim os vínculos se rompem, sem que haja algo que se possa pôr em seu lugar. Fica aquela ponta solta ao vento, aquela incompletude que machuca o ego. E que, se vivenciada na infância, muito provavelmente ecoará por toda a vida, e será replicada nas gerações subsequentes.

Nosso problema não é só a miséria econômica, mas a sua potencialização quando se funde às relações miseráveis que temos construído, os vínculos líquidos e fugazes que nos fazem sentir impotentes e incapazes.

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