Conteúdo descentralizado e a alforria dos criadores do mundosteemCreated with Sketch.

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o sol se levanta para os maus e bons, e a chuva desce sobre justos e injustos.

Descentralização de Conteúdo, a solução final que precisamos colocar em ação hoje.

A promessa trazida pela Internet de exterminar intermediários foi substituída pelo domínio de novos impérios, camuflados como plataformas de socialização ou economia compartilhada. Nenhum desses conglomerados levou a desintermediação às consequências extremas, constituindo redes socioeconômicas capazes de distribuir toda a riqueza criada de volta aos seus participantes. E o motivo é muito simples: o modelo vinha se pagando bem, até agora.Descentralização, blockchain e criptomoedas viraram o assunto dos últimos 30 meses.

A multidão de esquemas de pirâmide e grupos mal-intencionados tentando tirar proveito das valorizações surpreendentes do Bitcoin, do Ether e das outras criptomoedas acaba gerando desinformação em torno da descentralização.

Conteúdo descentralizado é a ideia de receber dinheiro por conteúdo criado, seja através de uma rede P2P (peer-to-peer), seja através de algo simples como baixar um torrent na rede BitTorrent. É a ideia de financiamento e monetização direta de todo tipo de conteúdo. Esse ambiente em si é uma economia digital, com moeda, meios de pagamento e armazenamento e marketplace pra venda de conteúdo. Isso é o que eu chamo de “nova conteudosfera”: completa, descentralizada de ponta a ponta (sem uma grande organização no controle) e que, obviamente, se autorregulará.

Anunciantes têm cada vez menos controle sobre o conteúdo e o contexto em que serão promovidos, sem contar a fraude que assusta esse mercado, com a famigerada compra de views , e views gerados por bots. Num sistema descentralizado, a maquiagem de resultados é bem mais difícil, uma vez que tudo que acontece nessa rede tem um tipo de certificado, o que a deixa transparente, inalterável e supersegura.

A Blockchain tem esse poder: seu processamento a priori é transparente, mas ela conta com a segurança individual das informações transacionadas na rede, que, com uma chave criptografada privada, são impossíveis de quebrar. Além disso, só você pode ter controle sobre seus dados.

Acredito que a Blockchain e a criptografia podem, de fato, deixar os universos de classes sociais diferentes mais próximos, por darem acesso a qualquer pessoa de qualquer classe social à economia e aos meios de produção.

O sonho do poder compartilhado

O poder ainda está nas mãos de quem detém os direitos sobre os recursos, sobre as mídias e sobre as pessoas. Assim, você pode ir apenas até onde eles permitirem e quiserem.Essa era uma verdade absoluta até 2008, quando Satoshi Nakamoto mandou um e-mail ao The Cryptography Mailing explicando o conceito do que ele chamava de “Bitcoin”, assim lançando o projeto em 2009. Pode parecer bizarro que uma iniciativa que definitivamente mexe com o status quo tenha nascido de maneira tão espontânea, num corpo de e-mail de uma lista de e-mail social qualquer. Uma coisa eu posso afirmar: esse e-mail de Satoshi Nakamoto mudará a maneira como a sociedade irá se relacionar com o poder, a economia e a mídia. Aliás, já está mudando.

Atualmente tenho pensado muito na relação da Blockchain com a pós-modernidade e o futuro e em como isso vai impactar a maneira como nos comunicamos e vivemos. Sim, estou falando de conteúdo descentralizado. Me aprofundei nos estudos no final de 2015, tentando colocar em perspectiva a tecnologia Blockchain e a “tokenização”, alinhadas com questões culturais, histórico-sociais e de acesso de indivíduos comuns ao poder. Foi um emaranhamento de dramas e fios de história de diversas origens e finais, que fortaleceram o meu entendimento ideológico da Blockchain. Esse conceito de conteúdo descentralizado é extremamente inclusivo e confesso que é umas das coisas que mais me movem a desenvolver uma comunidade ao redor desse assunto. Ainda mais quando eu olhava para uma ideia de rede de liberdade e cooperação entre pessoas com interesses comuns. Existe uma necessidade de horizontalizar o conhecimento de forma urgente, para que exista um lugar livre onde todos aprendam com todos. Não podemos fechar os olhos e deixar de pensar na cultura globalizada inegável em que vivemos. A Blockchain nasce de um contexto histórico social muito específico, anterior à internet. Digo isso para além do viés político e econômico contemporâneo. Precisamos falar sobre como a nossa geração vai implementar, absorver e usar todo o poder que nos está sendo dado através da descentralização das redes. Se você quer ser o “Millennial” que você nasceu pra ser, precisamos descentralizar o conteúdo a partir de agora.

O ser humano busca, nas suas relações com o outro e com o mundo ao seu redor, encontrar segurança e liberdade, simultaneamente. A Blockchain está aqui para isso. Zygmunt Bauman, escritor polonês influenciado por Karl Marx e Weber — confesso que só li um resumo de seu livro “Medo Líquido” — , é conhecido pelo seu entendimento pessimista da experiência humana. A vida nada mais é do que um acúmulo de experiências. “Zig” diz que é impossível ter segurança e liberdade, pois o aumento de um implica na diminuição, violentamente desproporcional, do outro.Essas duas palavras, segurança e liberdade, uso aqui para exprimir os conceitos mais comuns ao dia a dia da nossa sociedade.

Quando falo em segurança, estou falando, na verdade, de segurança financeira, segurança de patrimônio, menor controle do governo sobre o dinheiro que você ganha, ferramentas de monetização para tudo o que você cria. Agora, quando falo em liberdade, falo sobre liberdade de expressão; principalmente, a liberdade de criar e levantar fundos para o desenvolvimento criativo e, possivelmente, obter uma performance igual ou maior à que você obteria se o que você criou estivesse num grande meio de distribuição de conteúdo criativo original.É a ideia do ser humano como sua própria instituição, e não mais filiado a instituições consagradas da modernidade “antiga”. O conceito de um criador de conteúdo singular, único, inédito, dono de uma história exclusiva, gestor da sua própria vida, que transita cruzando contextos múltiplos de forma simultânea, que é formado de acordo com as demandas do mundo de hoje, e não a partir de um crescimento rígido e predeterminado desde o início da vida social, pessoal e profissional.

Pode parecer que estou descrevendo alguém no futuro, mas esse indivíduo é muito conhecido de nós; é da nossa própria geração, a dos famigerados “millennials”. Nós mesmos nos vemos como indivíduos singulares e mais aptos do que seres humanos que jamais vimos em qualquer outra geração. Talvez seja a primeira vez na história em que o sujeito possa escolher quem quer ser e o que quer fazer, de acordo com a vontade do seu próprio nariz, no curso de sua existência. Não somos cópias de nossos pais, e nem de suas tradições, nem sócios vitalícios dos clubes, igrejas, bancos, ideologias ou partidos. Estamos tentando ser apenas “nós mesmos”. As redes sociais mostram isso descaradamente. É claro que comportamentos sempre serão importados ou assimilados, mas o mundo nunca esteve numa busca tão grande por singularidade e originalidade. Não haveria hora melhor na história da humanidade para se criar a Blockchain.

E aí é que entra a revolução nas ideias de moeda, mercado, negócios e mídia, que são alguns dos mais importantes elementos integradores e fomentadores do desenvolvimento das comunidades humanas. Ao olhar para os Tokens e para a Blockchain, sinto que talvez esse novo conceito possa fazer o entrelaçamento de duas qualidades comuns, que a nossa sociedade sempre desejou: segurança e liberdade. Tendemos a acreditar que elas caminham juntas, mas, na verdade, são retas paralelas que sempre tentaram se encontrar no infinito.

Por exemplo, o mundo dos vídeos sob demanda percebeu que há muito dinheiro a ser ganho além das fronteiras norte-americanas. Não acredita em mim? Abra o seu Netflix…. Conseguiu perceber? Talvez não, porque os títulos estão em inglês. Mas assista a alguns destes trailers: Narcos, Sense 8, Marco Polo, Marseille, 3%, Club de Cuervos, The Break, Chelsea, Nobel, Fauda, La Niña, Midnight Diner: Tokyo Stories, No Second Chance, só para citar alguns.A Netflix tem gastado centenas de milhões de dólares na produção de conteúdo para mercados estrangeiros — 190 mercados estrangeiros para ser mais exato. Reed Hastings, diretor executivo da Netflix, entrou de cabeça nesse mercado transcultural, porque acredita que a Netflix pode se tornar “mais do que Hollywood é para o mundo”. A estratégia parece estar funcionando. Em 2016, a empresa conquistou 60% de clientes internacionais a mais do que o previsto”, um sucesso que não passou despercebido. Agora, o Amazon Prime e a HBO também estão entrando nessa corrida multicultural. E por que isso? Acertou quem disse grana.Não quer dizer que as empresas de vídeo sob demanda só pensem em dinheiro. Erik Barmack, vice-presidente de Originais Internacionais da Netflix, tem verdadeira paixão por ver talentos locais produzindo histórias locais. “Quanto mais local fica a narrativa, mais o público local se identifica”, afirma Erik. Quanto mais identificação, mais assinantes, e quanto mais assinantes… acertou, mais dinheiro.

O problema que Hastings não percebe é que, no mundo dos Millennials, eles dizem o que querem assistir, e hoje temos aproximadamente 3 bilhões de pessoas com opiniões diferentes. Como produzir tanto conteúdo para gostos tão divergentes com o objetivo de ganhar alguns dólares? Isso é sustentável a longo prazo nessa geração? Você provavelmente deve ter um amigo que só assiste alguns canais específicos do Youtube. Outro problema é que a Netflix não está fechando a conta. Arrisco a dizer que eles têm um grande desafio na expansão da rede. A Netflix tem servidores locais em varios países em que atua para conseguir atender a demanda de rede dos seus usuários, simplesmente por que eles não têm um servidor como o Google. O modelo de negócio de “subscribers” também não é a solução final quando se deseja criar conteúdo original. O peso econômico fica todo em cima do crescimento da base de assinantes. Isso sem contar a concorrência que também oferece O MESMO modelo de negócio para o mesmo público. Nessa brincadeira, a Netflix tem uma dívida a longo prazo de 20 BILHÕES de dólares. Já a Alphabet, dona do Google, está correndo atrás de fonte solares de energia para rodar seus servidores de maneira sustentável. A conta não vai fechar também se depender só desse modelo, como já não fecha no portal de vídeo da Alphabet.

O YouTube não consegue pagar um dinheiro justo para os criadores de conteúdo, além do fato de sua publicidade ser negociada em dólar, o que tem sempre uma retração no mercado de mídia quando a economia de países como o Brasil, por exemplo, vai mal. Isso afeta diretamente o criador de conteúdo, que recebe menos anúncios e, por consequência, menos dinheiro. Digo isso sem mencionar o impacto que as blockchains vão ter sobre o modelo de negócios do Google.É claro que tudo pode mudar, talvez o próprio Google, ou a Netflix, passe a fazer o uso da tecnologia da Blockchain, mas eu desconheço o conceito de empresa de conteúdo descentralizada. A relação economia e infraestrutura de rede nunca esteve tão conectada como está com a Blockchain.

É certo que a conveniência dos Tubes e Flixes é uma barreira para que usuários migrem para plataformas alternativas de conteúdo — os argumentos da descentralização, da privacidade e de uma economia inclusiva raramente superam aquele do conforto.Existe muito mais nesse mundo do que ser trader ou apenas comprar moedas na esperança da valorização em médio prazo. O que mais anima nesse mercado são as tecnologias novas que ainda foram pouco testadas com o grande público.

O YouTube, maior site de vídeos do mundo, encara um êxodo de criadores chateados com a limitação da liberdade de expressão em favor do pedido de anunciantes e a força da mídia tradicional americana que ataca ferozmente a plataforma por ter perdido parte relevante de uma fatia do mercado de mídia.Está na hora de as agências de publicidade se perguntarem por que financiam a mídia, quando existem tecnologias que já sugerem um alívio econômico, e como elas se veem refém do mesmo modelo de 100 anos atrás. Por que o peso econômico da rede recai sobre os ombros apenas dos anunciantes? Por que só os anunciantes financiam a rede? As distribuidoras de conteúdo precisam se perguntar até onde elas vão ter que expandir a infraestrutura. Será mesmo que o mercado de conteúdo deve ficar para as Teles que hoje controlam a infraestrutura da rede?

É incrível como redes de conteúdo descentralizado, na verdade, incluem e absorvem empresas tradicionais e modelos clássicos para dentro delas. A verdade é que Walt Disney Company, YouTube, Globo, Universal, Warner Bros., VICE, HBO, ESPN, NBA, Netflix, Hulu e outras serão absorvidas e trazidas naturalmente pra dentro desse conceito descentralizado de rede. Quem ficar de fora sumirá em poucos anos.

Uma das características da nossa geração de criadores de conteúdo é que ela se retroalimenta do seu próprio público. A necessidade de ser singular faz com que esses novos criadores encontrem público pra toda essa pluralidade de conteúdo que temos potencial de criar hoje.Existe um mercado que o modelo atual de infraestrutura de rede e de economia de mercado de conteúdo nunca vai alcançar. A verdade é que não dá pra dominar o mundo se você for centralizado. Existe mais dinheiro no mercado descentralizado não explorado do que no mercado centralizado explorado atual. Existe mais gente produzindo conteúdo de qualidade hoje do que antigamente, e essas pessoas querem receber o justo por isso. Simplesmente, o modelo atual não é sustentável.

Precisamos desenvolver esse assunto e precisamos desenvolver juntos. Ideias, pessoas, críticas precisam estar em um lugar comum, onde possamos unir criadores de conteúdo e desenvolvedores desse novo mercado. Eu criei uma comunidade chamada DecentralizedContent no Telegram e gostaria de convidar você para participar. Acesse aqui — https://goo.gl/roSmva .

Esse novo horizonte que se abre com o conteúdo descentralizado vai mudar a maneira como vamos contar a história da humanidade daqui pra frente. Venha fazer parte dessa comunidade! O mundo das redes decentralizadas veio para ficar e ele será como o sol e como a chuva, o sol que se levanta para os maus e bons, e a chuva desçe sobre justos e injustos.Escrevo sob a perspectiva da cultura no mundo líquido moderno, onde não há mais fronteiras ou limites para a sociedade humana.

Eu apoio e participo do projeto Paratii, que é uma rede de conteúdo descentralizada no formato de player embedável, na qual tenho contribuído com ideias, divulgação e boas vibrações. Conheça o projeto Paratii em http://paratii.video

Toddy Ivon é brasileiro, pensador e storyteller, faz expediente em sua própria produtora de cinema e agências de publicidade na região de Los Angeles, Califórnia onde vive com sua família.

Agradecimentos especiais aos amigos Juliana Melo, João Marcos Flores, Breno Castro, Marco Gomes, Nathan Ross, Felipe Santana e Paulo Perez, que tem contribuído com minhas pesquisas e reflexões sobre os assuntos tratados neste texto. Foto incrível feita pelo amigo Evan Halleck

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Valeu por compartilhar! Legal saber que tem produtora brasileira apoiando projetos como o Paratii. Sucesso e boa sorte mais uma vez!!

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paulada @toddyivon! Publicidade, pay per view, assinatura de TV a cabo... nenhum modelo é soberano ou sai seguramente incólume diante das novas gerações!

Excelente texto, se quiser falar mais sobre o Parati, está convidado para falar de seu conteúdo em nosso site!
Muito bacana o texto mesmo, parabens!

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obrigado amigo...precisamos divulgar mais e mais!

Grande artigo, Toddy!

Puxa vida, amigo! Isso é muito real e próximo. Só tenho a agradecer pela aula nesse texto que você nos passou. Imagina quando essa revolução chegar nos desfavorecidos, desinformados, que dependem de alguém, seja do governo ou do sistema tradicional e manipulador.

Comentei la no facebook, estou interessado e tentando entender essa rede.

Que artigo maravilhoso, uma das coisas mais lúcidas que já li aqui no Steemit! É tema para um livro ou dois! Obrigado por compartilhar seu raciocínio, assino embaixo tudo que disse e espero poder trocar mais ideias a respeito!

Bem interessante ! Espero ler outros posts assim !