Hereditariedade e suas vicissitudes

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Cuidado Spoilers no decorrer dessa discussão!!

Acompanhando os ricos textos que meu amigo e ex - parceiro de enfermaria Leonardo March vem fazendo, escolhi trazer o filme Hereditário (Hereditary - 2018). Desde já, aviso que é um filme tenso, angustiante, e ainda, tem que estar preparado para diferentes emoções ao assistí-lo, não é um filme fácil de digerir.


Poster Divulgação: AdoroCinema

Com roteiro e direção do estreante nos longas Ari Aster, o enredo demonstra perspicácia e conhecimento sobre o funcionamento psíquico. Digno de referência aos clássicos do gênero. O elenco do filme comporta uma estrutura familiar nuclear composta pelo pai (Gabriel Byrne - Steve Graham), a mãe (Toni Collette - Annie Graham), e dois filhos, o mais velho (Alex Wolff - Peter Graham) e a filha mais nova do casal (Milly Shapiro - Charlie Graham). Com ressalvas, mesmo que esquecida das grandes premiações, a atuação de Toni Collette no papel de Annie Graham.

Esse filme pode ser abordado por diferentes perspectivas, fomentando muitas discussões/direções/linguagens, nas quais, nem se eu quisesse, conseguiria exaurir em um texto individual, limitado a uma mera interpretação. Sem mais delongas, irei a princípio evidenciar o título da obra: Hereditário.

A palavra Hereditário, remete transmissão aos descendentes.

E o que seria transmitido aos descendentes?

Nas últimas décadas, com evolução das ciências biológicas, ficou muito em evidência a transmissão genética. De fato, os genes são transmitidos na linhagem vertical parental aos descendentes, porém muito mais é transmitido no meio familiar. Como: valores, tradições, afetos, ideias, interpretações do mundo e das relações com o meio que vivenciam. Esses, estão em constante relação com outras pessoas, moldando a cultura que forma a sociedade em um dado espaço-tempo.

O viés errado de interpretar a transmissibilidade genética como uma decorrência determinista, é excluir a interferência do meio. O fenótipo molda, e é moldado pelo genótipo. O meio, no sentido bem amplo da palavra meio, molda a variabilidade da expressão gênica.

Em um breve resumo, o enredo se inicia no velório de Ellen Taper Leigh, avó materna dessa família que se passa a trama, uma senhora que perpassou anos de uma doença pouco discutida, sugerindo uma doença mental. Mãe da personagem principal Annie Graham (Toni Collette), que ainda teve o pai falecido por inanição decorrente Transtorno Depressivo com Sintomas Psicóticos(DSM-V), e o irmão cometeu suicídio decorrente do que se chama hoje de Espectro da Esquizofrenia(DSM-V).

O núcleo familiar de Annie Graham (Toni Collette) traz uma herança forte. Seria essa herança genética? Seria uma herança psicológica? Seriam os dois?

Prefiro interpretar que podem ser os dois. Tanto a herança genética, quanto a psicológica é transmitida hereditariamente. Discute-se muito a genética, não menos importante também é a herança psicológica na genética. Ao pé da letra, não pode-se esquecer, que o psicológico é produto do corpo orgânico. Talvez, o campo de estudo da epigenética nos mostre muito mais nos próximos anos..

Tanto a genética, quanto a cultura(familiar, comunitária), são consequências da história que às formam.

Então, qual a história dessa família?

O enredo mostra pouco as relações de Annie Graham com seus vínculos parentais, ao mesmo tempo, coloca pistas no início mostrando uma cena intrigante. Tem como emprego domiciliar, criar representações de ambientes realistas e minimalistas, incluindo pessoas. Em cena, mostra-se um quarto que a mesma tenta com esforço alimentar seu bebê, enquanto ele está no colo da mãe(avó) deitada na cama no lugar de Annie, e ainda sendo amamentado pela no peito da avó.

Isso sugere uma criação invasiva, não muito incomum em muitas relações parentais. Onde um sujeito em sua construção psíquica, é esmagado pelo desejo do outro, não tendo espaço ou oportunidade de elaborar os próprios desejos, o próprio jeito. Ao mesmo tempo, que um sujeito para advir, precisa do desejo do outro, de afeto, e de outros. A natureza comporta infindáveis paradoxos da existência humana.

Essa identificação hereditária que Annie Graham recebeu de sua mãe Ellen, que é um dos pilares que molda seu jeito de ser, sofre muito ao vivenciar o luto desse ente querido e apaixonado ao qual tem muito afeto investido. Muitas emoções, sensações e pensamentos são sentidos na alma(no sentido fenomenológico).

Emoções que todos temos, faz parte da nosso funcionamento biológico. Não só Annie, nesse caso, toda família sofre o luto da avó, experimentando diferentes emoções, eventualmente sentimentos, de acordo com suas personalidades e vivências com o ente querido falecido.

O luto é humano. É fisiológico. No entanto, o luto de Annie ainda vai além.

Em meio à história contada no enredo, também importante chamar atenção para o que Annie chamou de “sonambulismo”. Termo que a mesma utilizou para explicar uma situação em que quase incendiou o filho quando pequeno. Isso sugere o não conhecimento, ou aceitação, de uma doença, do qual ela chamou de “sonambulismo”.

Essa dificuldade humana de lidar com sofrimento mental, de aceitar e ser compreendido por outras pessoas, é muito comum. Já foi trazida por Leonardo March no texto O Lado Bom da Vida - Transtorno Afetivo Bipolar de Pat Solitano Jr.. Nosologia que seria minha hipótese para Annie, tendo em vista a oscilação em extremos do humor e seus desdobramentos, dentre outros fenômenos apresentados pela personagem, que ainda durante a história do filme, sofre um segundo luto de maneira extremamente dolorosa com a perda da filha. Momento em que fica mais caracterizado os signos da síndrome maniforme, que em geral podem apresentar com: Diminuição necessidade sono, humor disfórico e exaltado, labilidade emocional, perda do pragmatismo, pensamento acelerado, fuga de idéias, delírio persecutório, grandioso e/ou místico, hipersexualidade, aumento da psicomotricidade, podendo chegar a agitação psicomotora intensa, etc.

Lembrando, que, essas situações não acontecem propositalmente, da vontade ou planejados pela pessoa. Nos surtos psicóticos essa pessoa em sofrimento mental, vivencia em sua realidade diversos fenômenos psíquicos (conscientes e inconscientes).

Outros personagens apresentados como Charlie Graham, a filha mais nova, mostra-se uma criança introvertida, demonstra por vezes olhar perplexo, aparenta expressar pouco as emoções. Pouco fala, ficando mais isolada do meio que vive, alguns comportamentos estranhos (ex:cortar cabeça do pássaro morto e guardar). Eventualmente, começa a experimentar em sua realidade “aparições” da avó, ao qual parece que tinha um forte vínculo, podendo ser respectivamente caracterizados por fatos clínicos como os fenômenos patológicos: pseudos-alucinações ou alucinações. Nas pseudo-alucinações ocorrem alterações na interpretação subjetiva(pseudo-alucinações) da realidade, a alucinação haverá percepção(vozes, imagens, cheiro, sensações) objetiva da realidade(alucinações verdadeiras). Essa diferenciação leva em conta conceitos teóricos, e muita experiência prática. Dessa forma pode-se discernir com mais clareza o divisor de águas, entre o sofrimento(Phathos) e o patológico.

Peter Graham, adolescente filho mais velho do casal, demonstra-se ao primeiro momento indisciplinado. O enredo o coloca em uma relação conflituosa com a mãe, de uma ambivalência afetiva mútua. Demonstra imaturidade emocional, como consequência da sua construção psíquica (intelecto + emocional + orgânico), ocasionando dificuldades de lidar com suas responsabilidades, por trás da camada superficial da indisciplina. Aparenta uma tonalidade afetiva triste, por vezes irritável. Diversas cenas demonstram sintomas ansiosos, provenientes da sensação de angústia, e utilização de recursos como drogas(álcool/maconha) para lidar com essas sensações. Algumas substâncias, como as citadas(até medicações), também podem ter outros efeitos, podendo ter efeito contrário e desencadear sintomas ansiosos.

Por último, Steve Graham, o pai de Charlie e Peter, fica apagado na história (acredito que propositalmente), e aparece mediando os auges dos conflitos familiares(briga entre a mãe e o filho mais velho), e sofrendo as consequências de um lar com dificuldades, como toda a família.

Entre o Real e o Imaginário

Ari Aster constrói o filme inicialmente de forma naturalista, realista, seguindo a linha do tempo. Eventualmente, durante o desenvolvimento da trama, é incrível como os registros das realidades se misturam. Nos deixando perdidos, no que é real, do que é imaginado pela subjetividade dos personagens. Nublando essa linha tênue da apreensão da realidade pelo sujeito humano, em sua organicidade, quando em vigência do patológico. São característicos os distúrbios de percepções, sensações, e interpretação da realidade humana, como já citados, no sentido da psiquiatria descritiva como sintomas psicóticos - delírios/ alucinações (DSM-V).

Outra grande sacada, é o percurso da abertura do quadro psicótico em Peter, em uma das cenas evoca até o psiquiatra clássico E. Bleuler (1857 - 1939), apresentando como fenômeno psíquico somático patológico a hemiface(rosto) dividida, evidenciando a ambivalência, a esquizo, a cisão da personalidade de Peter. Sendo mostrado durante o filme, desde o trema, até talvez, a fase de consolidação da síndrome delirante alucinatória.

Ainda tem muitos fenômenos psíquicos apresentados no filme, e cenas emblemáticas que poderiam ser discutidas. Contudo, já está extenso demais. Deixo para outra oportunidade, ou se você - com muito esforço, e agradeço por isso - que chegou até aqui, se quiser discutir algo em específico, só deixar nos comentários.

Muitas pessoas e suas famílias sofrem por doenças, faz parte da biologia humana, e de muitos outros animais. O conhecimento serve para instrumentalizar as intervenções humanas no intuito terapêutico. O diagnóstico é importante, mas ainda é apenas uma parte do projeto terapêutico. Cada caso é único. O trabalho é atuar com instrumentos para intervir positivamente, no caso a caso. Na vida real isso faz muita diferença, muda muitas vidas.

Diferentes saberes, têm diferentes funções e finalidades. Por isso também a importância de trabalho multiprofissional. Como também, do acesso aos meios de saúde públicos, é o mínimo necessário a sustentar alguma coesão social, e dar acesso a grande parte da população que não tem condições financeiras.

Hereditário é um filme muito bem elaborado. Traz a tona em sua metáfora como: palavras, imagens, ideias; que formam as histórias das vivências individuais e familiares, datilografam a biologia. Marcando gerações.


Obs: A exposição de conteúdos neste contexto estão sujeitas ao viés interpretativo do autor. O texto serve ao intuito educativo e reflexivo. Uma discussão ilustrativa sobre os personagens e características do filme. Uma interpretação real só pode ser realizada na presença da pessoa ao vivo, e a partir da transferência. O saber do sujeito na clínica é o que mais importa, ninguém pode saber mais sobre nós, e nossa realidade, do que nós mesmos.



Autor: Matheus Guimarães Gomes Rangel - Médico - R3 Psiquiatria SMS Rio de Janeiro - CRM-RJ: 5295376-8

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Critíca cinematográfia Genial como hoje já não se vê.
Parabéns.
A eterna dialética da filogénese e ontogénese é como o ovo e a galinha, que não são partes isoláveis mas um único sistema dinâmico.
A heredetariadade biológica ( e patológica hehe) são a semente da árvore, mas o desenvolvimento dessa planta única depende do ambiente que irá reforcar ou enfraquecer esse pool de património genético.
Grande trabalho como o que o Steemit precisa.

·

Exatamente, um único sistema dinâmico. Gosto de evidenciar isso, pois ainda hoje no Brasil são estudados e praticados como se fossem partes isoláveis, ou priorizando determinações genéticas e ambientais. Isso nos faz nos afastamos da escuta do sujeito, e fazer clínica de forma superficial ou por escores, que é a medicina das máquinas.Obrigado pela leitura e comentário @charlie777pt!

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Excelente texto!!! 👏🏼

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