Relato 7) - Ayahuasca: Caminho Sagrado - Trabalho do Oriente (26/08/2017)

in #jornadalast month

IMPORTANTE: Este local é um espaço de vivência com ayahuasca e não tem nada a ver com a doutrina do Santo Daime.

Por isto neste relato vou respeitar este contexto, mas vou continuar a usar o termo igreja, para definir o espaço interno onde o trabalho ocorre.

Este local fica em Parelheiros, zona sul. É um pequeno sítio.

Fomos eu e meu enteado. Saímos de casa às 18:00 e chegamos lá às 21:00. Levamos um bolo e um suco, pois no site consta que depois de trabalho sempre fazem um lanche comunitário.

Desta vez fui com o objetivo de fazer um trabalho para mim, em busca de sabedoria, já que o tema era a linha do Oriente.

Como é de se esperar, o trabalho não começou no horário (22:00) começou por volta de 23:30.

Não estava tão frio quando chegamos. Antes de iniciar os trabalhos entramos dentro da igreja para conhecer. Barracão simples, como tem que ser, dois altares pequenos, um com figuras de deuses indus e outro com várias outras divindades.

A igreja era toda fechada por paredes de vidro, exceto de um lado, que era separado pela mata apenas por um murinho.

O que me chamou a atenção foi uma prateleira abarrotada de cobertores e colchonetes. Não acreditei, mas o meu enteado falou que era para nosso uso.

Logo percebi que a medicina ali era utilizado como uma vivência espiritual/autoconhecimento, não como doutrina. Fiquei bem animado, pois imaginei que alí eu poderia me entregar totalmente à condução do ser divino contido na medicina.

Antes de iniciar o trabalho com a ayahuasca alguns subiram em uma casinha para tomar o rapé. Eu não fui, ainda não quero usar esta medicina. E como nunca usei, fiquei preocupado também de não conseguir fazer o trabalho com a ayahuasca, pois o rapé também é uma medicina forte.

Entramos no barracão, pegamos alguns cobertores e colocamos sobre as cadeiras, longe da parede que não tinha parede e no fundo da igreja, para podemos encostar a cabeça na parede de trás.

Em determinado momento chamaram para dentro da igreja pois o trabalho/vivência iria começar.

Nossos lugares estavam do jeito que deixamos, só com o cobertor sobre a cadeira. Sobre a cadeira tinha um saquinho plástico de boa qualidade e papel. A igreja estava lotada, com mais de 50 pessoas. Mulheres de um lado e homens de outro, como no Céu de Maria.

O padrinho Mário falou por mais de 15 minutos, confirmando que ali é um espaço de vivência/autoconhecimento com a medicina (o espaço não é tido como uma religião ou doutrina). Falou sobre a medicina da floresta, sobre o efeito da ayuhasca sobre os nossos corpos sutis, como se comportar quando a força chegar.

Falou que após tomar a ayahuasca não tem um botão de “desligaistopeloamordeDeus”. E que quem não quisesse continuar era só falar que a contribuição (50 reais) seria devolvida e que a pessoa voltasse quando se sentisse preparada. Falou bastante sobre a espiritualidade, sobre a nossa essência. Bem instruído este padrinho. Gostei.

Ele disse que seria melhor ficar de olhos fechados durante a vivência. Falou também que o saquinho era para fazer a limpeza ( vomitar ), se necessário. Disse também que os guardiões ( os voluntários que ajudam no trabalho) estavam ali para auxiliar em qualquer coisa, inclusive pegar o saquinho e entregar outro se necessário.

O trabalho iria até as 6 da manhã e seriam servidas até 3 doses de ayahuasca. As pessoas que quisessem tomar iriam até o centro da igreja quando soasse o sininho.

Mais tarde seria acesa uma fogueira e quem quisesse poderia ir para lá. Disse também que após a segunda dose quem sentisse vontade poderia vir para frente bailar.

A ayahuasca foi servida começando pelos homens, em ordem por fila. Foi servido em um copinho de metal e este copinho ficaria conosco durante todo o trabalho. Você pegava o copinho e um pedacinho de maçã para tirar o gosto (adorei isto, rs ).

A ayahuasca era daquela intermediária de grau 5, conforme o padrinho Mário disse. O daime mais forte do céu de Maria deve ser de grau 10, pois é tão grosso que o copo (de vidro) fica marrom, mas o gosto era o mesmo.

De duas caixas de som começaram a ser tocados cânticos indús ( Shiva,Ganeshe (aquele deus indú que é a figura de um elefante)). Alguns com frases em português. O som que saía das caixas era meio alto e estava incomodando, mas aos poucos me acostumei.

Sentei na minha cadeira e me enrolei todo no cobertor pois estava um frio danado ( me arrependi de não ter ido com a minha meia calça de lã por baixo da calça jeans).

Aí foram apagadas as luzes, ficando somente sob luz de lamparinas.

Passado um tempo comecei a sentir a força da ayahuasca. Como de costume fechei os olhos.

Desta vez não visualizei o som em formas e cores, mas senti que as músicas me elevavam.

Em determinado momento, quando começou a cantar para Shiva foi tomado por esta força de puro amor e aquele sorriso esplendoroso se fixou no meu rosto por muito tempo. Senti em todo o meu ser este amor.

Cheguei a enjoar e senti tanto esta força que achei que iria incorporar esta energia, mas isto não aconteceu.

Depois começaram hinos para Ganeshe ( o deus indu elefante), aí enjoei de novo e me senti crescendo, e senti que controlava uma tromba, rs. E me deu uma vontade louca de fazer aquele barulho que o elefante faz, rs. Achei que iria incorporar de vez esta energia mas não aconteceu. Puxa, estes deuses indus existem mesmo, rs.

Algumas pessoas estava vomitando no saquinho, e ao contrário do que pensei, a igreja não foi tomado pelo cheiro que eu achei que iria sentir. Engraçado isto: quando eu ia na Umbanda também não sentia o cheiro do cigarro que as pombogiras fumavam.

Depois fomos chamados para tomar a segunda dose da ayahuasca. Como a força já estava enfraquecendo e senti que tinha mais coisa para vir, fui tomar a segunda dose e depois fui no banheiro fazer xixi e voltei morrendo de frio e me enrolei no cobertor. O padrinho estava anunciando que a fogueira estava acesa, mas eu preferi ficar dentro da igreja.

Uns minutos depois o restinho do efeito da primeira dose foi potencializado pela segunda.

Hinos para Shiva e Ganeshe desta vez senti mais alguns braços além do meus, rs. Mas novamente não incorporei totalmente estas divindades.

Aí o padrinho Mário disse que o trabalho iria começar a ficar mais alegre e quem sentisse vontade poderia bailar no centro da igreja.

Depois de um tempo vi que o meu enteado foi bailar. Algumas pessoas, totalmente tomadas pela força bailavam de forma alegre e descontraída.

Em determinado momento os dedos dos meus pés se fecharam para dentro e se levantaram do chão e eu era uma águia em pleno vôo.

Depois a coisa começou a ficar interessante.

Senti uma alegria imensa e meus pés começaram a bailar no sentida da música.

Aí uma voz na minha consciência disse “Agora relaxa, é hora de alegria e descontração, mas muita instrução também”.

Em alguma parte da minha consciência senti que meu Eu Divino ( meu espírito ) conversava com alguém sobre a mente.

Aí nesta conversa entrou também uma parte da minha mente, que não sei como explicar, era pura, amorosa, abundante, sem medo e livre do egoísmo.

Aí um deles “disse” algo como: “É assim que deveria ser, a mente parceira do espírito, ambos focados a cumprir o caminho”

Disse que deveria ser como naqueles jogos que chamamos de vôlei, mas que aqui a bola nunca cai. Ambos, espírito e mente jogando juntas.

Aí eu pensei “Meus Deus, só tomando ayahuasca mesmo para ver o espírito e mente conversando, se amando”

Tive muita vontade de beber água aí um deles disse “Ih, lá vem ela de novo (a outra parte da mente). O que ela quer agora? Quem convidou ela?” E todos riam muito e eu também, rindo mesmo. Abri os olhos e vi que eu estava rindo gostoso, mas sem fazer qualquer barulho.

Um deles disse “Ela acha que o corpo vai morrer de sede. Espera mais um pouco, ele não vai morrer”. E todos riam e eu também.

Um deles disse “Ela acha que está no comando, faz isto durante milênios, mas vamos acolhê-la com amor e respeitá-la”.

Aí a minha mente ( esta que sente sede, rs) pediu licença para entrar. Eles disseram: “só se você se comportar”. Ela não entrou, rs.

Aí de repente minha cara ficou muito séria e uma outra “voz” em entonação grave disse algo como “Vamos mudando o direcionamento, chega de “bagunça”.

Aí um deles disse algo como: “Ih, lá vem o tiozão”. E todos riram. “Calma, o momento aqui ainda é de descontração e alegria”

Isto aconteceu mais uma vez. Esta voz grave chamando todos para mudar o foco e eles voltavam para a “festa”, rs.

Aí um deles falou: “Fizemos isto (o lance do tiozão ) só para você ver que aqui também tem alegria, não é como vocês pensam, tudo sério o tempo todo”.

Teve um momento em que eu senti frio e tive que fazer um esforço para me mexer e arrumar o cobertor. Vi que minha blusa (de zíper) tinha aberto, ficando o zíper no meio e a blusa aberta acima e abaixo dele.

Tentei arrumar e um deles disse “Deixa isto. Eita ser atrapalhado” e riu. Ri muito também. Deixei para lá, me arrumei no cobertor e senti muito calor. Calor gostoso, reconfortante.

Tinha umas vezes que minha mente ( a que sente sede, rs) pensava em coisas totalmente nada a ver e eu seguia este fluxo de pensamento, e eles falavam algo como “Eita, onde ela (a mente que tem sede) vai agora?”. Aí eu voltava para a reunião.

Depois veio aquela voz grave e me deu algumas instruções, as quais me reservo no direito de não compartilhar.

Tive outras instruções mas não me lembro no momento.

O trabalho terminou por volta das 06:00, o padrinho Mário veio e falou por mais de 15 minutos novamente, com instruções maravilhosas. Disse também que estava servida a mesa com o lanche trazidos pelos participantes. Ficamos um pouco ainda dentro da igreja, guardamos os cobertores e aí eu vi que tinha gente deitada em colchonetes com cobertores dentro da igreja mesmo.

Lá fora também tinha bastante gente deitada, aproveitando os benefícios da medicina, medicina da floresta. Tinha gente em volta do restinho de fogueira também.

Achei muito interessante as instruções passadas sobre a mente vem bem de encontro ao que eu penso sobre ela. Não é possível que Deus tenha criado algo imperfeito. Em algum momento algo aconteceu e esta mente negativa tornou-se o próprio ser.

Autor: Valdemir Nunes da Silva
Originally published at: https://www.recantodasletras.com.br/ensaios/6619483

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