“Guerra e Paz” retrata o jeito de pensar da humanidade

Entre 1863 e 1869, mais precisamente durante cinco anos de trabalho ininterrupto, o russo Liev Tolstói se dedicou à escrita de “Guerra e Paz”, uma das obras mais volumosas da história da literatura universal (em média, duas mil páginas, depende do volume!).

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À medida em que pesquisava e entrevistava pessoalmente as pessoas, o foco foi se desenhando, assim conseguiu entender melhor o período em que seria necessário retroceder para abordagem histórica e o título mais apropriado.

O plano inicial era um romance sobre os decembristas, grupo de oficiais e nobres revolucionários, que em dezembro de 1825 desencadearam um movimento contra o tsar Nicolau I. Para tratar sobre o assunto, concluiu que era necessário voltar ao ano de 1812, época da invasão napoleônica em solo russo. No entanto, depois de pensar mais um pouco, só ficou satisfeito com o ano de 1805.

Isso explica o título original da obra, durante os primeiros anos de dedicação era: 1805. Com a incorporação de novos temas, encontrou outra possibilidade, influenciado por suas referências anarquistas.

Contexto histórico da vida e obra de Tolstói

Em 1861, havia acontecido a abolição da servidão na Rússia. Os ânimos estavam efervescentes com debates políticos radicais promovidos pelos intelectuais conhecidos como “os homens de 60”.

Tolstói tinha 35 anos quando começou “Guerra e Paz”, um ano antes havia acabado de se casar. Além do trabalho como escritor, tinha outras dedicações, como atividades educacionais com camponeses. Ele criava escolas, lecionava, estudava muito e fazia viagens para apoiar suas pesquisas.

Um dos traços marcantes registrados era sua personalidade inquieta e questionadora, chegando a ter sua casa invadida pela polícia por conta de seus apoios a estudantes vistos como rebeldes.

Ele tinha um jeito mais simples de se relacionar com as pessoas. Isso podia ser facilmente observado através de algumas atitudes rotineiras. Por exemplo, a preferência em falar com analfabetos em vez de nobres instruídos ou o hábito de andar a cavalo sem sela.

Tais características são refletidas na linguagem de seus personagens que são diferenciados pela classe social. Mas, não é só isso, o autor também se esforçou para não se submeter à norma estilística dominante de seu tempo. Isso acaba tornando a leitura mais fácil, diferente de outros clássicos.

Construção de “Guerra e Paz”

O autor acompanha a história de cinco famílias aristocráticas russas no período de 1805 a 1820, além da narrativa sobre a marcha das tropas napoleônicas e o impacto sobre a vida de centenas de personagens.

Em meio a cenas de batalha e bailes da alta sociedade, destacam-se algumas figuras, entre elas os irmãos Nikolai e Natacha Rostóv, príncipe Andrei Bolkónski e Pierre Bezúkhov. O retrato de cada um deles é feito além do plano pessoal e familiar, mas também é considerado a maneira como enxergavam Napoleão e a posição da Rússia no mundo.

Curiosamente, mesmo com a distância de época e cultura, é possível encontrar circunstâncias e condutas muito semelhantes às atuais. Isso acaba sendo um ponto forte da narrativa, porque é uma demonstração clara da perspicácia de analisar e registrar os comportamentos humanos. Afinal, não importa o espaço ou tempo, existem algumas particularidades que acompanham a humanidade.

É notável a presença da língua francesa na fala dos personagens, o que denota a pressão externa sobre a vida deles. Em outras palavras, transmite a ideia que o país já estava na condição de invadido antes da chegada do inimigo.

O dinamismo da mudança de perspectiva da narrativa desperta a curiosidade e facilita a fluidez da leitura. O deslocamento para a vida no campo ou para uma cena de batalha acontece de uma forma eficiente e rápida ao mesmo tempo. Apesar disso, o livro pode ser encarado como cansativo devido à quantidade de histórias e pormenores.

Aos poucos, outra característica marcante são os questionamentos cheio de argumentos para convencer ou intrigar sobre crenças encaradas como naturais, universais e inquestionáveis. Algumas delas são tratadas até hoje em debates casuais ou até vistas como banais, eventualmente teorias da conspiração.

Talvez, por conta dessas abordagens, Tolstói não queria ponderar uma classificação da obra. Ele declarava que não poderia descrever como um romance, poema, tampouco crônica histórica, apenas aquilo que quis e pôde expressar.

Vale a pena a leitura?

Obviamente, sim. Mas, minha sugestão é uma leitura em algum período em que haja tempo mais descontraído ou vago. Indico 100 páginas por dia (20 dias de leitura), assim facilita o acompanhamento dos fatos e melhor aproveitamento da leitura sem interrupção de sequência de tempo.

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