Os Abismos Humanos e o Politicamente Correto

in pt •  last month
Lembro-me de que soltávamos os papa-capins muito novos que capturávamos. Aqueles ainda pardos. Os únicos que caíam no nosso alçapão. Nos queríamos só os que já começavam a ganhar a coloração dos machos adultos, pois as fêmeas não cantam e são sempre pardas. Foi quando tive aquela ideia de pegar um dos que íamos descartar e lançá-lo bem alto e longe. Não vi nada de mais nisso, pois eram seres que voam. De fato, pareceu que ele nem teve muita dificuldade de recobrar o controle e voar para a mata.

Lembro-me também de quando numa pescaria, ao pegar um lambari muito pequeno, em vez de colocá-lo de volta na água, resolvi arremessá-lo o mais longe que podia em direção ao meio do lago. Não vi problema nisso, a água o amorteceria e ele era adaptado a ela.

E, por último, lembro-me de quando, ao ver um cão passando na rua, eu punha a mão no chão, e só isso já era suficiente para ver ele sair disparado com medo de levar uma pedrada.

Hoje, pensando nesses fatos, vejo muita estupidez. O pobre passarinho, uma criatura tão delicada sendo jogada para o ar como uma coisa, sofrendo aquela imensa aceleração e saindo da mão como uma pedra. Certamente, pode ter se machucado. E o peixe, puxado violentamente para um meio estranho e, depois, sendo lançado com toda aquela velocidade. Pode ter perdido uma nadadeira ou até um olho.

E o pobre cão? O coitado perdera parte do seu agradável e alegre passeio pelo bairro.

Hoje sei que todas essas ações de fato tinham uma única motivação, não percebida na época. Era o desejo de sentir poder sobre outros seres. Desejo só possível de ser exercido devido a falta de empatia e à ignorância.

Mas, é claro que não se podia esperar muita empatia pelos animais em crianças que estavam capturando seres para passarem anos presos numa gaiola (já pesou o que é passar estressantes e entediantes tardes inteiras numa gaiola), ou em quem se diverte puxando criaturas aquáticas com um anzol pontiagudo enfiado na boca (é claro que o peixe deve sentir uma dor terrível).

Lembrando-me desses fatos, tentei pensar no que seria, no mundo dos humanos adultos, o equivalente àquela mão de criança. E o que eu encontrei foram palavras.

Palavras… É com elas que os humanos podem ser lançados como coisas para dentro dos seus próprios abismos. É com elas que se pode ameaçar dar pedradas nas partes mais vulneráveis do ser. E tudo isso sem culpa nenhuma, pois eles deveriam estar muito bem adaptados aos seus abismos. E, também, por que não há nenhuma pedra real.

Assim, a falta de empatia, a ignorância e a vontade de poder sobre os outros nos tornam incapazes de perceber o quão brutas e ameaçadoras podem ser as palavras.
Authors get paid when people like you upvote their post.
If you enjoyed what you read here, create your account today and start earning FREE STEEM!