"Siete canciones populares españolas". de Manuel de Falla (1876-1946)

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Em 1914 o compositor Manuel de Falla (1876-1946) coletou um conjunto de canções tradicionais espanholas, estilizou, e arranjou para soprano e piano. Nascia assim sua obra mais executada, e re-arranjada de todos os tempos, as "Siete canciones populares españolas".

O ciclo foi realizado pela primeira vez em 1915 em Madri, no primeiro concerto da "Sociedade Nacional de Musica", é dedicado a Madame Ida Godebska, que organizava encontros regulares para artistas parisienses (como as terças Mallarmé), e também organizou a primeira edição destas canções.

Todas as músicas deste conjunto derivam de diferentes regiões da Espanha, cada uma com suas características musicais preservadas. Os poemas falam sobre o amor, e tudo o que vem com ele, alegre ou doloroso.

As sete canções são: "El Paño Moruno", "Seguidilla Murciana", "Asturiana", "Jota", "Nana", "Canción" e "Polo".

El paño Moruno

Música originária de Múrcia, província andaluza no sudeste da Espanha. A história é trivial, sobre uma loja que reduziu o preço de um pano porque estava manchado. A última palavra da cantora, é um lamento típico da palavra “ay”, indicando o sofrimento pelo valor diminuído do tecido.

O acompanhamento é o que torna esta peça realmente interessante: com uma série de variações rítmicas, e mudança de tonalidade, o que normalmente seria “apenas” um acompanhamento, ganha mais importância do que normalmente teria.

O “truque” usado por De Falla é ao mesmo tempo simples e brilhante. As músicas folclóricas espanholas são frequentemente acompanhadas pelo violão: então por que não traduzir as figuras rítmicas típicas do violão para o piano? Desta forma, a obra se mantem fiel às suas raízes, sua escrita lembra o solo violonístico ao inicio, enquanto uma mistura das duas mãos em arpejos, de forma acendente, e descendente, evoca o acompanhamento da música flamenca.

Al paño fino, en la tienda,
una mancha le cayó;
Por menos precio se vende,
Porque perdió su valor.
Ay!


Seguidilla Murciana

A Seguidilla é uma forma de dança antiga em andamento rápido. O nome é um diminutivo da palavra seguir. Originaria da região de Dom Quixote (La Mancha), ou Andaluzia, espalhou-se pela Espanha com uma série de variantes: manchega (de La Mancha), sevilhana (de Sevilha), murciana (de Múrcia).

A letra é uma declaração, que compara a pessoa que de alguma forma feriu o orador, a uma moeda, que é passada de mão em mão, até que totalmente consumida perde seu valor.

O que realmente domina toda a peça é, mais uma vez, o piano. Um pedal quase constante, repleto de cromatismos preenche a música do inicio ao fim, junto as notas arpejadas, executadas rapidamente, que nos remete ao toque violonístico.

Cualquiera que el tejado
Tenga de vidrio,
No debe tirar piedras
Al del vecino.
Arrieros semos;
¡Puede que en el camino
Nos encontremos!
Por tu mucha inconstancia
Yo te comparo
Con peseta que corre
De mano en mano;
Que al fin se borra,
Y créyendola falsa
¡Nadie la toma!


Asturiana

É uma de minhas prediletas entre todas. Tanto o texto e música, vêm de uma canção folclórica de Astúrias, parte norte da Espanha. É a delicada história de uma árvore, simpaticamente chorando junto ao seu herói.

O acompanhamento pianístico aqui é genial, a linha grave executa uma melodia dolorida, enquanto a aguda, executa notas oitavadas. O conjunto traz grande expressividade a voz, que entoa o seguinte poema.

Por ver si me consolaba,
Arrime a un pino verde,
Por verme llorar, lloraba,
Y el pino como era verde!

Aqui há um senso de imobilidade e inevitabilidade do começo ao fim. A árvore olha para a tristeza do herói do lado de fora: simpatiza com a sua tristeza, mas é impotente, e não pode deixar de aceita-la.


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Jota

Uma dança muito popular do nordeste da Espanha, especialmente na província de Aragon, é provavelmente a mais famosa de todas as canções.

Tradicionalmente, esta dança folclórica é cantada e dançada, acompanhada pelas castanholas, com intérpretes vestidos em trajes regionais. Em algumas regiões, foi, e ainda pode ser executada em rituais funerários.

Aqui o piano novamente nos remete ao violão imitando suas técnicas. Depois de uma introdução substancial, a cantora entoa o poema de forma mais livre em relação ao rigor rítmico inicial. Os momentos solistas do piano também nos remete a imagem do toque das castanholas.

O otimismo dos solos de piano, podem "enganar" o ouvinte a pensar que esta é uma música alegre e festiva. Na verdade, trata-se de um conto de amor secreto, com despedida melancólica.

Dicen que no nos queremos
Porque no nos ven hablar;
A tu corazón y al mio
Se lo pueden preguntar.
Ya me despido de tí,
De tu casa y tu ventana,
Y aunque no quiera tu madre,
Adiós, niña, hasta mañana.
Aunque no quiera tu madre…


Nana

Nana é uma das mais belas canções de ninar já escritas, ouvida pelo compositor por sua própria mãe, quando era uma criança, uma canção andaluza, tão suave e reconfortante nas palavras quanto triste na melodia.

A linha vocal é repleta de melismas no final de cada frase, enfatizando assim o idioma musical espanhol. Observe como o compositor escreve "mormorato" na voz: um sussurro, ao qual alguns compassos depois um diminuendo é adicionado. A música começa pianissimo (pp) e termina ainda mais piano (ppp). Apenas na segunda repetição há um pequeno crescendo para mf (mezzo-forte), atenuado imediatamente, gradualmente acalmando a criança no sono, e deixando a mãe a carregar o peso de seus próprios medos.

Duérmete, niño, duerme,
Duerme mi alma,
Duérmete, lucerito
De la mañana.
Nanintu nana


Canción

Esta é a única que não vem de uma determinada região da Espanha, mas baseada numa melodia amplamente conhecida em todo o país. É sobre amor perdido, e traído. O foco está no amante traído e na sua força recuperada. Uma vez que decide finalmente enterrar seus sentimentos. Lendo através das linhas, da junção entre música e texto, percebemos a amargura que é deixada sobre o traidor, quando o traído lança uma maldição sobre a pessoa que o deixou.

Enquanto a linha vocal é construída em notas curtas e sincopadas, o acompanhamento do piano unifica a peça com (novamente) traços violonisticos. A peça permanece em Sol Maior durante toda a música, mesmo com acompanhamento pianístico leve e bem humorado, há uma espécie de raiva que a invade, que só desaparece ao final.

Por traidores, tus ojos, voy a enterrarlos;
No sabes lo que cuesta,
“Del aire” Niña, el mirarlos.
“Madre a la orilla”
Niña el mirarlos
“Madre”
Dicen que no me quieres,
Y a me has querido…
Váyase lo ganado,
“Del aire”
Por lo perdido,
“Madre a la orilla”
Por lo perdido,
“Madre”


Polo

A última canção tem suas raízes na Andaluzia, seu acompanhamento vivo e animado em notas repetidas nos remete ao Zapateado, uma dança rica em ritmos flamencos

Uma música apaixonada, a repetição contínua de padrões rítmicos do piano unifica a peça enquanto a voz realiza a palavra "Ay". Um grito duro, que misturado com os melismas ciganos da linha vocal, e o acompanhamento, faz desta uma obra de grande originalidade desde o início.

A melodia, ao contrário das outras músicas, não se repete, muda de uma seção para outra, embora seja construída em torno do mesmo material. Os melismas no final de cada frase, ou semi-frase, são todas expressões dolorosas de um coração partido, que não consegue encontrar libertação senão gritar de cabeça para fora.

iAy!
Guardo una, iAy!
iGuardo una pena en mi pecho
Que a nadie se la diré!
Malhaya el amor malhaya, iAy!
iY quien me lu dió a entender!
iAy!


Alem da versão da soprano Victoria de los Ángeles, e da fenomenal pianista Alicia de Larrocha, existem arranjos que simplesmente adoro ouvir, como a orquestração do compositor Luciano Berio (1925-2003) na interpretação da mezzo-soprano Ann Murray junto a BBC Concert Orchestra. E dos arranjos para voz e violão, do compositor e violonista espanhol Miguel Llobet (1878-1938), aqui numa versão com Gabriel Estarellas e da mezzo-soprano Teresa Berganza.

Espero que gostem =D

Um grande abraço
Guilherme Faquetti
15 de março de 2019


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Referencias:

http://dbe.rah.es/biografias/9190/manuel-de-falla-matheu
https://en.wikipedia.org/wiki/Siete_canciones_populares_espa%C3%B1olas
https://www.artaxmusic.com/siete-canciones-populares-espanolas/
http://www.manueldefalla.com/es/el-archivo
https://en.wikipedia.org/wiki/Miguel_Llobet
https://pt.wikipedia.org/wiki/Luciano_Berio
https://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_de_Falla

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