Parte 2 - A Breve História do Existencialismo: VI - Pós-Estruturalistas - Jacques Lacan

in psychology •  8 months ago  (edited)

A Dialética da Libertação: Anarquismo, Existencialismo e Descentralismo.
Parte 2 - A Breve História do Existencialismo:
VI - Pós-Estruturalistas - Jacques Lacan

"A flor de uma vida livre é a negação de um real parametrizado." - charlie777pt

1 - Introdução


"O amor é dar o que não tem" - Jacques Lacan

Nos próximos cinco posts sobre o pós-estruturalismo, dedicarei em cada um, uma Introdução como partes da explicação do movimento e uma análise de um dos seguintes autores, Jacques Lacan, Michel Foucault, Emmanuel Levinas, Jacques Derrida e Paul Ricoeur. O pós-estruturalismo trouxe os conceitos de seres humanos como voluntaristas, autodeterminados e autoconstituídos, que lutam contra a ordem do mundo e onde nossa fala não pode ser separada dos objetos do discurso, fluindo na realidade.

Isso significa que o ser e a existência estão a moldar-se mutuamente e não há verdade sincrónica da realidade que possa ser congelada, mas um processo contínuo diacrónico a mover-se no eixo do tempo, onde o poder da palavra está transformando a realidade e sendo influenciada por ela nas nossas percepções internas e na nossa experiência .

1.1 - O pensamento Pós- Modernista


O Instrumentalismo, o Estruturalismo, o Desconstrucionismo, o Construcionismo Social, e a Psicanálise, são as influências e oposições do universo pós-estruturalismo e do pensamento pós-moderno.

  • O Instrumentalismo nas linhas do Pragmatismo vê as teorias e conceitos como ferramentas de mudança e pesquisa social.
  • O Existencialismo tem laços com a fenomenologia e enfatiza a subjetividade da existência individual formando experiência, na liberdade de escolha, construindo moral e verdade por auto-convicção.
  • O Estruturalismo, em oposição ao existencialismo, queria encontrar as formas de fenômeno dentro das estruturas e seu significado.
  • O Desconstrucionismo é sobre encontrar significado em textos culturais, que poderiam ter significados não unânimes, e queria entender a nossa percepção e categorização, e encontrar a polaridade das contradições nos fenómenos.
  • O Construcionismo Social expresso principalmente na Teoria Construtivista Social de Lev Vygotsky envolve as teorias do conhecimento em sociologia e comunicação, mostrando a conexão entre as representações da realidade como resultado da construção social compartilhada.
    O conhecimento é construído no processo de aprendizagem pela cooperação entre os indivíduos, mas só é possível com a motivação do aprendente e de um parceiro que possa preencher as lacunas existentes.
  • A Psicanálise nasceu com a teoria de Freud de que a doença mental poderia ser curada ao tornar conscientes os pensamentos inconscientes por insights e transferências com o analista em sessões de terapia para liberar as emoções reprimidas e as experiências traumáticas, que podem ser vistas nos sintomas.

O Pós-Estruturalismo acredita que não há estruturas na sociedade e na cultura, e enfatiza a subjetividade do conhecimento e as verdades dessas entidades.

“Até que torne o inconsciente consciente, ele direcionará a sua vida e chamar-lhe-ás destino.” - C.G. Jung

   2 - Jacques Lacan (1901-1981)

Vamos começar esta série com Jacques Lacan, que foi nomeado o pai do pós-estruturalismo, e das influências que teve no movimento analítico, no feminismo, na teoria do cinema, no marxismo, e no movimento do pensamento pós-modernista, só para citar alguns. Lacan não procurava o self ou a verdade, interessava-se antes pelos processos de construção do conhecimento pela linguagem e pelas estruturas ideológicas, estruturando e condicionando a nossa ordem consciente, inconsciente e simbólica.

"O inconsciente é estruturado como uma linguagem."- Jacques Lacan

A abordagem de Lacan da linguagem como uma ordem simbólica, traz uma visão mais científica e realista do inconsciente como um sistema, e o discurso é visto como um reflexo das estruturas, criando uma ponte entre a psicanálise e a antropologia cultural de Lévi-Strauss. A linguagem é um vírus que se espalha nos seres humanos para entender e preencher a realidade, os seus relacionamentos, e a si mesmos.

"A palavra é uma chave para o Inconsciente" - charlie777pt

Vamos falar sobre a relação entre a psicanálise freudiana e a abordagem linguística de Lacan ao estruturalismo e conectar o sujeito falante como imerso na cultura, trazendo um modelo mais científico para uma abordagem mais realista da concepção do inconsciente.
Os teóricos ortodoxos freudianos observam a dualidade do pensamento simbólico e as estruturas, vendo-a como a reflexão cultural sobre o Superego, mas Lacan, rompeu com esta tradição, usando o estruturalismo para criticar os conceitos psicanalíticos.

Lacan, no meio de uma era de surgimento das teorias linguísticas, introduziu o conceito de signo para conectar a palavra, transformá-la no modelo lógico do sujeito situado na ótica da antropologia estrutural.
Ele foi profundamente influenciado pelo conceito de Dasein de Heidegger como a restrição do Self, e ele trouxe a possibilidade de que a palavra pudesse ter a mesma estrutura de sonhos para ser usada como um material analítico para as sessões terapêuticas.

Lacan distingue a Realidade - o mundo enganador do que acreditamos ser, do Real - a materialidade inexprimível da existência por trás da linguagem.

"As nossas palavras parecem-nos a Verdade" - charlie777pt

O modelo freudiano de Id, Ego e Superego foi rearranjado por Jacques Lacan, os conceitos das Ordens do Real, do Imaginário e do Simbólico (The Borromean Knot) e a relação entre os sintomas e a palavra.

"O inconsciente é aquela parte do discurso concreto enquanto transindividual, que não está à disposição do sujeito para restabelecer a continuidade de seu discurso consciente" - Jacques Lacan em Ecrits

3 - O Nó Borromeano de Jacques Lacan


  • O Imaginário é a fantasia e a imaginação, o fascínio e a ilusão, mãe e feminino, visual e imagético, ego e dualidade.
  • O Real é o Id, o Ser e a Natureza, o corpo e o objeto, as forças inconscientes e o instinto, o biológico e o neurofisiológico, as necessidades e a materialidade, e a busca da Verdade e a realização do desejo.
  • O Simbólico é o superego, pai e masculino, o sujeito e a fala (linguagem), influenciados pela lei e ordem, cultura e sociedade, como formas e estruturas.

A insegurança psicológica começa com a fragilidade ou a ruptura de qualquer um destes círculos, afetando a ansiedade ontológica (do ser) e, possivelmente, revelando disrupções no comportamentos observáveis ​​e na ordem do discurso, revelando a ordem dos sintomas que unem e consubtanciam os três anéis.

Nós olhamos, mas devemos procurar o que não vemos, quando falamos, observar o que não dizemos, se nós escutamos, devemos perguntar o que não estamos a ouvir, e sempre que tocamos, temos que aprender a sentir.

"Cada palavra preenche um Vazio no Mundo" - charlie777pt

Lacan acima de tudo era um homem que se expunha ás contradições de si próprio e das suas convições, e que fundamentalmente perguntava sempre a quem o procurava -o que é que as pessoas queriam verdadeiramente-.

Escrever este post foi duro, porque li todos os trabalhos de Lacan e dos seus críticos, já á muitos anos atrás, pelo que fui obrigado a dar apenas um vislumbre da ponta do iceberg sobre a complexidade do pensamento lacaniano, e espero que tenha sido uma boa motivação para os leitores o conhecerem melhor.

Terminamos aqui o post concentrado sobre Jacques Lacan e os próximos posts serão sobre Michel Foucault, Emmanuel Levinas, Jacques Derrida e Paul Ricoeur.

Fabuloso Video em Francês (tem legendas em espanhol) Jacques Lacan Parle | 1972 | Documentário

Durante uma aula, Lacan é interrompido por um estudante que faz uma intervenção ridicularizando tais intelectuais públicos.

Documentário Encontro Com Lacan (Rendez-vous chez Lacan) - Legendado em português-BR


Origem da Foto: Wikipedia

A Dialética da Libertação: Anarquismo, Existencialismo e Descentralismo.
Artigos publicados:

Introdução à Dialética da Libertação: Anarquismo, Existencialismo e Descentralismo

I - Anarquismo

II - Existencialismo

Próximos posts da Série: II - Existencialismo(Cont.)

  • O que é o Existencialismo?(Cont)
    • Parte 2 - História Breve do Existencialismo: VI - Pós -Estruturalismo- Michel Foucault
    • Parte 2 - História Breve do Existencialismo: VI - Pós -Estruturalismo - Emmanuel Levinas
    • Parte 2 - História Breve do Existencialismo: VI - Pós -Estruturalismo - Jacques Derrida
    • Parte 2 - História Breve do Existencialismo: VI - Pós -Estruturalismo - Paul Ricouer
    • Parte 3 - A Filosofia do Existencialismo : I - O significado do Sem Sentido
    • Parte 4 - O Medo da Liberdade de Erich Fromm
  • Os "Existencialistas"
    • Part 1 - Os Jogadores e os Tempos
    • Part 2 - Jean Paul Sartre - O Homem do Século XX
  • Humanismo e Existencialismo
  • Existencialismo e Anarquismo
  • O Futuro: Pós-Humanismo, Transumanismo e Inumanismo

III - Descentralismo

  • O que é o Descentralismo?
  • A Filosofia do Descentralismo
  • Blockchain e Descentralização
  • Anarquismo, Existencialismo e Descentralismo

IV - Dialética da Auto-Libertação

  • O Congresso da Dialética da Libertação
  • Psicadelismo e movimentos Libertários e Artísticos
  • Psicanálise e existencialismo
  • O movimento antipsiquiátrico

Referências:

- charlie777pt on Steemit:
A Realidade Social : Violência, Poder e Mudança
Piotr Kropotkin - O surgimento do anarquismo
Colectivismo vs. Individualismo
Índice do Capítulo 1 - Anarquismo - desta série

Livros:
Oizerman, Teodor.O Existencialismo e a Sociedade. Em: Oizerman, Teodor; Sève, Lucien; Gedoe, Andreas, Problemas Filosóficos.2a edição, Lisboa, Prelo, 1974.
Sarah Bakewell, At the Existentialist Café: Freedom, Being, and Apricot Cocktails with with Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus, Martin Heidegger, Maurice Merleau-Ponty, and Others
Levy, Bernard-Henry , O Século de Sartre,Quetzal Editores (2000)
Jacob Golomb, In Search of Authenticity - Existentialism From Kierkegaard to Camus (1995)
Herbert Marcuse, One-Dimensional Man: Studies in the Ideology of Advanced Industrial Society
Louis Sass, Madness and Modernism, Insanity in the light of modern art, literature, and thought (revised edition)
Hubert L. Dreyfus and Mark A. Wrathall, A Companion to Phenomenology and Existentialism (2006)
Charles Eisenstein, Ascent of Humanity
Walter Kaufmann, Existentialism from Dostoevsky to Sartre (1956)
Herbert Read, Existentialism, Marxism and Anarchism (1949 )
Martin Heidegger, Letter on "Humanism" (1947)
Friedrich Nietzsche, The Will to Power (1968)
Jean-Paul Sartre, Existentialism And Human Emotions
Jean-Paul Sartre, O Existencialismo é um Humanismo
Maurice Merleau-Ponty, Sense and Non-Sense
Michel Foucault, Power Knowledge Selected Interviews and Other Writings 1972-1977
Erich Fromm, Escape From Freedom. New York: Henry Holt, (1941)
Erich Fromm, , Man for Himself. 1986
Gabriel Marcel, Being and Having: an existentialist diary
Maurice Merleau-Ponty, The Visible and The Invisible
Paul Ricoeur, Freedom and Nature: The Voluntary and the Involuntary
Monte Cazazza, The lyrics of "Six eyes from hell "
Brigite Cardoso e cunha, Psicanálise e estruturalismo (1979)
G. Deleuze and F. Guattari, Anti-Oedipus: Capitalism and Schizophrenia,

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Is that your kid?
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