Os influenciadores da Violência - Parte Dois - Fatores Sociais, Cognitivos e Ambientais

in psychology •  2 years ago 

Realidade social: Violência, Poder e Mudança
Os influenciadores da Violência - Parte Dois
Fatores Sociais, Cognitivos e Ambientais


Nesta série de posts sobre Violência, falámos sobre os aspectos biológicos e psicológicos do comportamento agressivo, como a frustração o influencia, e como isso é determinado pelos modelos de aprendizagem social desde a infância e com factores desencadeadores da situação presente.
Na parte 1, ampliámos a nossa visão sobre a influência da Cultura e do Contexto Social na violência, e nesta parte 2 vamos analisar os aspectos da Socialização, da Cognição e do Meio Ambiente.
Antes de continuar, deixarei esta imagem para pensar como cada indivíduo orienta as "pulsões" ou energias violentas do comportamento agressivo.

III - Fatores Sociais que Influenciam a Violência


1- Influência Social
A violência social pode estar relacionada a ações contra a alteridade, desigualdade, género ou discriminação social.
Trabalhar tornou-se um estado de escravidão, onde as pessoas, mesmo com dois ou mais empregos, não conseguem uma vida decente, estressando e abrindo portas para a violência.
A Violência manifesta-se com a raiva, a hostilidade e a impulsividade, onde a raiva é um fator desencadeante tanto de agressões físicas e verbais como da hostilidade.

Hoje sabemos o que acontece com as crianças expostas à Violência em conflitos étnico-políticos, construindo o desalinhamento psicossocial dos níveis cognitivo, emocional e do autodesenvolvimento.
Os piores casos são os exércitos de crianças soldados ou os que os usam para abuso sexual, e é impossível imaginar o sofrimento e a perturbação de personalidade que esses traumas os marcam como quase irrecuperáveis ​​para toda a vida com reflexos em toda a vida do planeta.
Hoje existem inúmeros videos de crianças a "brincar" imitando as execuções dos grupos extremistas.
Lembro-me da minha infância da brincadeira dos "Cowboys e Indios" que inconscientemente marca a nossa visão sobre a violência e facilita a interiorização do modelo americano de chacinar todos os povos que se opõem ao seu domínio.

A aprendizagem social está relacionada com mecanismos biossociais que influenciam o desenvolvimento de estruturas e processos sociocognitivos, em interações que moldam o futuro comportamento violento emergente na vida adulta.
As condições de interação social influenciam o grau de comportamentos violentos, e abordaremos as perspectivas da presença de outro "ator" e a pressão social de "autoridade"que sempre vê a agressão sob o poder da lei para repôr a "Ordem Social".
Na primeira perspectiva, os indivíduos têm a presença ou intervenção de alguém, como observadores externos ou uma "autoridade" usada para antecipar as consequências de suas ações, se consentirem ou reprovarem esse comportamento de agressão.
Na segunda perspectiva, a sociedade hierárquica social usa o poder como uma "violência legítima" do uso da autoridade para alcançar submissão e dominação.

Kren e Rappoport em 1980 mostraram que o racismo é normalmente um "motivo" para o grupo dominante aceitar a "violência justificada".
O estudo de Milgram em 1974 é impressionante porque ele queria descobrir como os nazistas poderiam cumprir ordens horríveis e inaceitáveis, ​​de matar, torturar e destruir seres humanos pela diversão da ciência nazista.
Ele descobriu que quando há uma "autoridade" presente e dá "força" ás pessoas para prejudicarem outras pessoas com choques elétricos, elas vão longe demais, usando puniçõies que sabem que podem matar porque podem ouvir os gritos dos "atores-vítimas".

Bickman, em 1974, expôs essa perspectiva com um experimento simples.
Um polícia, um leiteiro e uma pessoa comum das ruas pedem para as pessoas fazerem determinadas ações, como apanhar um saco do chão, dar uma moeda a uma pessoa desconhecida para estacionar o carro ou mudar de paragem em transportes públicos.
As pessoas raramente aceitavam essas ordens absurdas do leiteiro ou da pessoa comum, mas com o polícia verificou-se o seguinte:
82% das pessoas apanham o saco
89% dá dinheiro a um estranho para pagar o estacionamento
56% das pessoas aceitam mudar para outra paragem que não querem ou precisam.

2 - A Categorização Social
A categorização social está classifica uma pessoa com premissas que a caracterizam como um estereótipo.
Os estereótipos sociais raciais podem influenciar o comportamento agressivo e pode aumentá-lo se o "punidor" souber que éanónimo.
Os estereótipos sociais são grandes influenciadores para desencadear comportamentos violentos, em que a categorização social leva à "objetificação" do outro.
3- Violência de Grupo
Os grupos podem ser "referências morais" para justificar a violência como uma influência da inter-relação entre os grupos em que a agressão é alimentada pela coesão e pelo "sentimento de pertença".

Sherif, em 1953, verificou que a competição entre grupos de crianças cria animosidade mútua com base em num aumento de estereótipos negativos e maiores níveis de comportamento agressivo.
A ultra-violência dos clãs de hooligans do futebol tem relações estreitas com os movimentos fascistas de extrema-direita, e eles têm um culto e filosofia semelhantes aos "Camisas Negras".

IV - Fatores Cognitivos que Influenciam a Violência
É muito importante identificar características individuais associadas à agressão e à violência na infância e na juventude, que podem ser direcionadas especificamente pela prevenção e intervenção, pois os esforços preventivos da primeira infância geram melhores resultados.
O autocontrole nas crianças gere e regula emoções e comportamentos, e devemos ensiná-los a "pensar antes de agir".

As pessoas têm "crenças normativas" sobre agressão e violência, um sistema moral constituído de cognição e a aceitação social dos outros sobre a violência em diferentes circunstâncias.

V - Fatores Ambientais
Aqui vamos falar sobre os fatores ambientais como as condições de vida, bem como, por exemplo, a influência do calor e do ruído no comportamento agressivo.
Vamos analisar a influência das áreas da cidade no comportamento agressivo, sabendo que a concentração urbana pode ser a faísca para gerar o fogo da violência.
As crianças urbanas não podem ir ao espaço adulto e se envolver em atividades com elas e ficam dentro de casa a maior parte do tempo ou, no pior dos casos, ficam nas ruas lotadas no meio do lixo, carros e às vezes atividades criminosas e violência.

Os grandes espaços urbanos são berços de relacionamentos empobrecidos, estrutura familiar frágil, anonimato, frustração e perda de solidariedade e identidade.
Relatórios feitos em 1977, mostraram que o comportamento agressivo está inter-relacionado com o número de edifícios e o número de andares dos prédios.
Houve evidências de que a criminalidade aumenta muito nas zonas onde os edifícios têm mais de 6 andares e diminuem onde têm menos de seis.

Alguns experimentos sobre áreas urbanas apontaram também a questão do ruído da cidade poder reforçar o potencial para ocorrências de comportamentos violentos.
Foram também feitos estudos sobre a influência do calor na violência, porque em alguns tumultos nos guetos foram precedidos por um vago calor uma semana antes. Os resultados sugerem que o desconforto do calor pode aumentar a "pulsão" violenta latente de alguns indivíduos.
Portanto, o calor e o ruído são apenas gatilhos da agressão, e não estão diretamente ligados ao comportamento agressivo, mas podem potencializar a agressividade já existente.

No próximo post, vamos falar sobre a Violência da vida quotidiana, focada nos aspectos do ambiente familiar e da violência nos media tradicionais, e finalizar estudando as possibilidades terapêuticas para o tratamento da Violência.
A cultura como normalizadora dos valores da Civilização, gera tensão e ansiedade, que aumentam porque a sociedade usa sempre "terapias" violentas para controlar a violência e resolver os problemas de manutenção da "ordem".

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A ascensão da violência de hoje
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Os efeitos e conseqüências do poder
Mudança:
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As teorias e a conceptualização da mudança
Fatores que determinam a mudança
Os caminhos da mudança
Mudança social
Referências de livros consultados:
Les concepts fondamentaux de la psychologie sociale - Gustave-Nicolas Fischer
La psychologie sociale - Gustave-Nicolas Fischer
A dinâmica social-violência, poder, mudança - Gustave-Nicolas Fischer Planeta/ISPA, 1980
Gustave-Nicolas Fischer é Professor de Psicologia e Diretor do Laboratório de psicologia na Universidade de Metz.
French, J. R. P., & Raven, B. H. (1959). The bases of social power. In D. Cartwright (Ed.),Studies in social power. Ann Arbor, MI: Institute of Social Research
Castel, R. As metamorfoses da questão social. Vozes, 1998.
Moscovici, S. (1976).Social influence and social change. London: Academic Press.
Michel Foucault, Discipline and Punish: The Birth of the Prison
Festinger, L. (1954). A theory of social comparison processes.

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Saudações charlie777
Influência social é terrível. Vide os casos de brigas dentro de estádio de futebol. Lá geralmente há uma parte menor de psicopatas que vão para brigar e uma grande parte que é a massa de manipulação desses psicopatas para briga. Eles começam á incitar briga com xingamentos, ameaças, etc e logo todos ou quase todos esttão envolvidos nessa onde de violência.

Obrigado e bom dia!

Saudações amigo.
O problema é que hoje os fatores ambientais tem aumentado exponencialmente a sua influencia no crescimento da violência .
A guerra tem aumentado largamente aumentando o portfolio da violência e ninguém quer ver as consequencias internas nos países que negoceiam armas e suportam genocídios, morte de civis e crianças e destroem todo o ambiente das populações nativas.
A violência é o principal negócio dos países que vendem armamento.
Os cultos da ultra-violência está associada ao crescimento dos extremismos políticos de direita(individualismo vertical) e também de esquerda(coletivismo vertical) é mais um sintoma da agressividade crescente na vida social.

Acredito que a violência é o resultado de um conjunto de factores, nomeadamente cognitivos e ambientais. Contudo, acredito que os factores ambientais são quase decisivos para decidir o caminho a seguir.

Eu acredito mais que os fatores ambientais cada vez tem mais força na geração do fenómeno da violência.
A instabilidade, a incerteza social e económica e os novos modelos políticos contaminados pelos interesses dos lobbies das armas e da guerra dos grandes imperialismos que estão em frição e a acumular agressividade mútua e mais armas.
A política da humanidade está a ser dirigida pelos atuais "gangues" do capitalismo selvagem, apagando todos os valores humanos da sua equação, o que irá resultar em violência social mais cedo ou mais tarde.