#FILMOTECA# - "Bohemian Rhapsody" (2018)

in filmoteca •  14 days ago

Fonte: Divulgação (The Telegraph)

Sinopse: O filme mostra o sucesso meteórico da banda através de suas canções icônicas e som revolucionário, a quase implosão quando o estilo de vida de Mercury sai do controle e o reencontro triunfal na véspera do Live Aid, onde Mercury, agora enfrentando uma doença fatal, comanda a banda em uma das maiores apresentações da história do rock.

Quando o assunto é fazer uma cinebiografia, os roteiristas e os diretores sempre enfrentam muitas problemas... Alguns clássicos, como por exemplo reescrever (muitas ou poucas) cenas do roteiro, escalar um elenco muito semelhante ao "material" do que está servindo como inspiração ou encontrar - ou fabricar - locações que atendam as necessidades do projetos.

Isso tudo se potencializa de uma forma gigantesca quando a proposta é levar para as telonas a história da banda Queen, que além de icônica pela sua peculiaridade sonora e pela sua marcante presente nos palcos (entre demais aspectos que comentarei adiante), definiu - ou redefiniu, a depender da visão de cada telespectador - os padrões da indústria fonográfica.

Fonte: Divulgação (Rotten Tomatoes)

De antemão, é preciso dizer que o filme pode ser categorizado em dois grupos (porque ele atende a dois tipos de propostas diferentes): 1. o público que realmente é fã e conhece a história banda em detalhes e 2. o público que tem alguma simpatia pela banda e decidiu ir assistir ao filme para conhecer um pouco mais sobre a banda e seus integrantes.

Essa "fragmentação" de ideias que o roteiro proporciona - apresentando caminhos diferentes para interpretação do público - tem o seu lado bom e o seu lado ruim: o lado bom é que todo mundo, de alguma forma, fica satisfeito quando o filme termina (porque afinal, todos os sucessos da banda estão espalhados pelas mais de 2 horas que a produção tem e isso acaba sendo, sempre, o ponto mais alto da cinebiografia)... o lado ruim é que ficou muito clara a ideia dos roteiristas e do diretor quanto à decisão não mergulhar mais a fundo na história do excêntrico vocalista da banda, tirando assim, muito do impacto que a história real possui (mas julgo como uma decisão acertada para não chocar o público que não conhece tão bem os detalhes mais pesados que são parte da formação da banda).

Fonte: Divulgação (EW)

Farrokh Bulsara (nome real do cantor Freddie Mercury) foi um artista excêntrico, com uma voz incontestavelmente marcante e dono de uma personalidade difícil que lhe rendeu diversos tipos de problemas (não apenas os de ordem pessoal - com destaque para os momentos onde ele assume e decide viver a sua verdadeira sexualidade - e os de ordem profissional - onde existem os conflitos com os outros integrantes da banda). No entanto, a abordagem do filme quanto a esses elementos não explora todo o seu potencial e durante várias passagens, o roteiro sempre deixa isso muito evidente.

Cenas envolvendo bebedeiras, sexo e drogas (algo esperado para um filme onde o Rock n' Roll é a pauta principal... algo que fica ainda mais inflamado quando se trata da galera do Queen) são raras durante a projeção. Quando o roteiro decide investir em algumas delas - como forma de causar algum impacto no espectador - o faz de uma forma muito simplória e quase de forma velada, como se estivesse tentando "esconder" a verdadeira natureza da banda (e principalmente quem era o verdadeiro Freddie Mercury).

Essa condução meio "comportada" por parte do diretor Brian Singer é muito estampada na tela e isso delimita um pouco o trabalho dele (que continua sendo bom no saldo final) quando se enxerga o filme como um todo. Cenas onde haveriam um maior impacto dramático são mostradas por breves segundos e a opção de trabalhar com recorrentes takes internos para oferecer grandezas aos shows é um dos aspectos mais falhos aqui, porque é visível que há uma falta de conexão entre palco e público.

Fonte: Divulgação (The Straits Times)

Em contrapartida, o roteiro é muito eficiente no que diz respeito a compilação dos maiores sucessos da banda. Muitos dos momentos mais icônicos deles estão lá, como a incrível apresentação no primeiro Rock in Rio e o mega show no Live Aid (que tornou-se inesquecível pela sua causa e pela sua simultaneidade de transmissão... um projeto antes nunca visto). Todas essas passagens (e as demais, que alternam entre momentos onde existe uma explosão dramática enquanto outros momentos são mais carregados de humor) são embaladas pelos clássicos do quarteto de uma forma que o resultado final do filme acaba sendo uma grande homenagem, um verdadeiro tributo a um dos pilares do Rock mundial.

A experiência de assistir a esse filme no cinema torna-se algo para ser lembrado porque o roteiro investiu pesado na correlação das músicas com as cenas que dão vida a elas. Em especial, o final do terceiro ato tem um clímax apoteótico que com certeza tem o poder de arrepiar a todos (principalmente aos verdadeiros fãs da banda). Neste aspecto, a produção técnica se destaca não apenas quanto a sua trilha sonora - que aliás, não tinha como ser ruim - mas também na questão da caracterização das épocas (com figurinos inusitadamente exuberantes, dentro e fora das performances nos palcos) e dos personagens em si.

Fonte: Divulgação (Radio X)

O elenco é interessante porque eles demonstram uma familiaridade com seus papéis (e isso é fundamental para que os personagens ganhem vida de uma maneira apropriada para que o público compre a história de cada um deles), mas quem rouba a cena - por razões óbvias - é Rami Malek, que apesar de por vezes ser muito caricato nos trejeitos do cantor e também de não ser muito parecido com o mesmo (aliás, ele substitui a primeira escolha para protagonista, que era o ator Sacha Baron Cohen... que por achar o roteiro puritano demais, acabou recusando o papel) entrega a melhor performance da sua carreira até então.

De modo geral, é muito perceptível a intensidade na atuação do elenco. Mas como existem os destaques evidentes durante a projeção, alguns ficam mais apagados do que outros na tela. No entanto, há diversos momentos onde todos se sobressaem: a união da banda nos momentos de discussão quando precisam criar novas músicas, os processos inusitados para as gravações, os ensaios, a ascensão meteórica do grupo do anonimato para o estrelato, as discussões e a reconciliação.

Fonte: Divulgação (The Verge)

Mas é em torno dos dilemas de Freddie Mercury que Bohemian Rhapsody encontra a sua fortaleza (afinal, o filme foi pensado nisso... e durou 10 anos para ficar completamente pronto), oferecendo ao público a oportunidade de entender um pouco mais sobre a personalidade caótica e cheia de elementos inconstantes que despertam nesse artista tão complexo tantos medos (como o pavor de ficar sozinho) e sentimentos estranhos (aqui demonstrado pela sua estranha - porém compreensível - obsessão por Mary, o grande amor de sua vida).

Além disso, poder entender como era a dinâmica existente dentro da banda, como tudo teve início e como tudo chegou a ruir aparece como um bônus luxuoso nas telonas que através de seus empolgantes números musicais capazes de fazer você bater palmas / o pé no chão, cantarolar (ou cantar a plenos pulmões), estalar os demais e, talvez, chorar de emoção.

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