A Falha
Um erro insignificante não teria sido suficiente. Somente uma grave falha teria possibilitado que o conteúdo começasse a se tornar manifesto. Manifesto, passou a existir. Poderia continuar a não existir, e para isso bastaria que o envoltório que o continha não falhasse. No entanto, falhou. Dentre as inúmeras amostras daquele lote, não soube de outra que não correspondesse às expectativas. Foi a única que não pôde conter o que continha e, por isso mesmo, falhou. Tudo ocorreu por acaso. Por acaso falhou. Por acaso passou a existir. Acaso e fatalidade. Não tivesse falhado seguiria conforme e seria aprovado como os demais. Não conheceria a dor de ser o que é. Não sofreria com os inauditos desdobramentos de uma libertadora ruptura, nem teria sido desencadeado algo de irremediável: a dúvida sobre o próprio destino, a outra face da liberdade. Quando ainda não havia falhado, de acordo com a inscrição no rótulo e com o formato do envólucro que o continha, definia-se, reconhecia-se, sabia o que era e para o que servia; sabiam, também, os outros, quem ele era e para o que servia. Era um deles. Não se diferenciavam. Como eles, fora-lhe dada uma utilidade, e também como eles isso lhe bastava para viver. Vivia em conformidade, conformado. Não atinava para o que realmente havia em seu interior pois nunca lhe sucedera pensar em nada além do necessário para viver - só são felizes as pessoas cujo pensamento não vai além desse necessário. Após ter falhado, passou a ser atormentado pelo desejo de ir mais além: busca encontrar por si próprio uma interpretação para o que se passa consigo. Se não houvesse falhado, talvez jamais viesse a sentir necessidade de desvelar-se; não haveria a ruptura, e, não havendo, não estaria estabelecida a diferença, para além das aparências, entre ele e os outros. Apenas são felizes as pessoas que não sofreram semelhantes falhas, mas estas pessoas não existem - são impessoais. Ele falhou, e por ter falhado sabe que existe.
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